Something Stupid
"Mas tudo que é grande é tão difícil de compreender quanto de encontrar." Espinoza

Sexta-feira, Maio 28, 2004

Afinal de contas, o que é que você ainda está fazendo aqui ?

posted by Chico | 15:14 Comentários:

Sábado, Março 20, 2004

E se eu não estiver mais aqui quando você voltar ?

posted by Chico | 14:05 Comentários:

Domingo, Março 14, 2004

Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos ricos.

Certas coisas não se explicam facilmente. Pessoas que gostam da cor laranja, terrorismo, gentes-de-teatro e críticos de filmes ainda não vistos.

Após o sucesso de Paixão de Cristo, que já pode ir direto para a TV de tão batido que está, o lançamento mais comentado do momento é Indiana Jones 4. Cinéfilos brasileiros atestam que o filme não é pró-palestina, embora Harrison Ford use turbante.

Sobreviventes brasileiros do atentado em Madri confirmam que o mais assustador foi ver Raul Seixas, no seu costume Patropi, na estação de embarque antes das explosões cantando "Ói, ói o trem...". Um mineiro jura que também viu Elis Regina cantando "Você pega o trem, o sol na cabeça...".

Não sei cantar nenhuma dessas músicas, nem fui conferir as letras porque de terrorismo, me basta as FM's.

A cor laranja ou alaranjada é um mistério para mim. Assim como quem queira casar ou não se separar de Marta Suplicy. Por falar nisto, o maior mistério do Oriente não é o Islã, mas sim, Yoko Ono. E isto basta para deixar clara minha posição anti-laranja.

Poucos crêem na história de Adão e Eva, mas ninguém duvida de Yoko, que sendo a maçã podre, deu início ao mau gosto musical do ocidente. E não me choca tanto as explosões de bombas simultâneas em locais diversos quanto o lançamento simultâneo de cd, dvd e livro de Caetano Veloso, que aliás, já advertia: "Eta, eta, eta..."

posted by Chico | 18:08 Comentários:

Relembrar é Morrer Mais um Pouquinho

Enfim, chega o carnaval em Curitiba. Vai começar o famoso Bostival de Teatro. É tempo dos curitibanos ficarem mais ridículos. Sim, só porque é tempo de festival, neguinho vai assistir tudo quanto é peça. Coisa de três por dia. Uma atrás da outra.

Fora de temporada de festival, no máximo ele vai a teatro assistir formatura de parente e show da Marisa Monte no Guairão. Não que ir a teatro seja algo decente. Em Curitiba, pelo menos, não é. Não pelas gentes-de-teatro, que só me fazem rir do seu figurino quando não estão em cena (em cena nunca vi, portanto, é muito pior). Mas sim pela gentes-que-querem-ser-de-teatro.

Antes ficassem só nos teatros, mas agora periga você pegar uns performáticos no meio da rua lhe obrigando a assistir aquilo. É como eu sempre respondo àqueles hippies que me param no calçadão da XV perguntando se eu gosto de poesia: "Não depois que você me leu a sua."

* clique aqui para ler sobre o Bostival de Teatro do ano passado. Ah, nada como a repetição de temas.

posted by Chico | 17:59 Comentários:

Domingo, Março 07, 2004

Não Vale A Pena

I

Segundo Aristóteles, as duas ciências que lidam com a arte da discussão são a Retórica e a Dialética. A primeira trata da arte da persuasão e a segunda, da investigação.

Contudo, na retórica aristotélica, interessa o teor dos argumentos utilizados, deixando de lado a pessoa do orador e os fatos de que ele fala. Ou seja, para Aristóteles, no nível de abstração em que ele trata a Retórica, pouco importa se o orador é gordo ou magro, feio ou bonito, cheiroso ou fedido. Da mesma forma, não interessa se é ou não honesto. Os fatos, por mais polêmicos que o sejam, também ficam de fora. Assim, por mais persuasivo que sejam, de início, temas como aborto, pena de morte, etc., não fazem parte da Retórica, que pode, evidentemente, sobre eles se aplicar.

A retórica assim, tratando do teor dos argumentos utilizados, é o discurso utilizado nos debates políticos, eleitorais e no tribunal do júri, por exemplo. A persuasão do eleitor para votar, do jurado para condenar ou absolver, é conquistada através de um discurso retórico utilizado pelo orador, que trabalha com a verossimilhança dos argumentos. Já é evidente, portanto, que na retórica, o papel do "auditório" é fundamental, porque é ele quem decide o debate.

A dialética, como forma de investigação, não se preocupa em persuadir ninguém. Aqui, o método é confrontar os argumentos contraditórios em relação a um tema para descobrir as premissas e princípios em comum de onde partem os argumentos, podendo-se então chegar a uma resposta mais racional e correta, e porque não, mais verdadeira. O debate público (leia-se persuasão), porém, também pode ser realizado dialeticamente. Só que aqui os limites para o debate são mais estreitos.

Isto porque no debate dialético, pressupõe-se que os contendores são pessoas bem informadas sobre o tema, e principalmente, sejam honestas o suficiente para que sua disposição seja encontrar a verdade apesar de "perder" o debate. Simples, o debate se inicia com posições antagônicas. O método dialético permite que se descubram premissas e princípios em comum. Investigando-se a partir deles, chegam-se a conclusões que necessariamente deverão ser aceitas pelos debatedores, mesmo que elas sejam o contrário do que pensavam. Não há, portanto, a rigor, persuasão.

Aristóteles também tratava de outras duas técnicas para a arte da discussão, que contudo são na verdade, caricaturas da Retórica e Dialética. A sofística e a erística. A primeira é a relação de esquemas de argumentação falsa, de falácias lógicas. Não há argumento correto aqui, ou verdadeiro. Já a erística é a arte da discussão belicosa, onde se trata simplesmente de vencer a todo custo, não importa a que preço, se com argumentos verdadeiros ou falsos. A erística não foi desenvolvida por Aristóteles, ao contrário da Sofística, em que ele aplicou critérios dialéticos para refutá-la (Refutações Sofísticas).

Vê-se portanto, que na Erística, a persuasão do auditório também é o fim do discurso, como na Retórica, mas desta se difere porque busca a persuasão através de quaisquer meios, inclusive os desonestos.

Cabe ressaltar que Schopenhauer é quem teria desenvolvido a erística aristotélica, em sua obra ¿Dialética Erística¿. Contudo, não se pode assim afirmar porque nesta erística schopenhauriana, há uma mistura de todos os tipos discursivos (poética, retórica, dialética e lógica), deles se aproximando e se afastando em maior ou menor medida. Bem esclarecidas essas distinções, a erística schopenhauriana também tem seu valor na arte da discussão, contudo, exatamente para se saber como não proceder e, principalmente, como se defender de argumentos erísticos utilizados contra você.

Com esta breve introdução já se pode perceber facilmente que o debate público hoje no Brasil, especialmente o político, é muito mais erístico do que retórico e que a dialética está a léguas de distância de todo esse falatório.


II

Após essas considerações iniciais, entro no tema que quero realmente aqui tratar. As discussões pela internet, seja através de listas de discussão, fóruns, entre sites ou blogs e nos comentários destes.

A primeira constatação aqui é a ausência de um auditório, de um árbitro, de alguém que vá decidir o debate. Não havendo isto, a única possíbilidade de uma discussão chegar a algo proveitoso, ou para que possa existir mesmo, seria ela se dar no terreno da dialética, com todas as suas implicações e limites absolutamente necessários.

Ou seja, relembrando, os debatedores devem ser absolutamente honestos para buscarem premissas ou princípios em que estejam de comum acordo, desvendando a partir daí de onde surgiram as divergências, sendo ainda mais honestos agora, para reconhecer que possam estar errados. Pressupõe-se também um mínimo de informação sobre o assunto por parte dos debatedores.

Se não for nessas condições o debate dialético, não se realiza. Aristóteles mesmo dizia que não se deveria dialetizar com quem não conheça o assunto e as regras de argumentação válida.

Mas não é isto que ocorre em 98% dos debates que leio por aí ou mesmo que participei. E tendo em vista a inexistência de um auditório a ser "persuadido" (a inexistência, é claro, se dá não pela inexistência de leitores, mas sim pela impossibilidade de se determinar quem está lendo e com quem este está de acordo), tem-se que a Retórica mesma também já se torna desvirtuada.

Abre-se espaço então, ou para sofismas os mais descarados ou a erística pura e simples. E aí, meu amigo, é briga de torcida organizada. É vale-tudo, é salve-se quem puder. Ou seja, não vale a pena. Não há vencedores, só perdedores. Muito menos se consegue descobrir se alguém tinha razão.


III

Nessa última semana, algo nesse sentido aconteceu.

No blog hoje fechado do Flamarion , tratou ele a respeito da tortura e do terrorismo. Especificamente, sobre elas no contexto havido durante a ditadura militar brasileira. As opiniões do Flamarion suscitaram debate nos seus comentários e não sei se em outros blogs (só li o ocorrido no "Contra a Ilusão"). Não entrarei aqui no mérito da discussão. Meu interesse é outro.

Concordando com Aristóteles, só posso crer que um tema deste só poderia ser dialetizado, através da concordância de premissas mínimas balisadoras da discussão.

A primeira delas, à evidência, é a imoralidade em si da tortura ou do terrorismo. A honestidade para este debate só poderia partir desta premissa, porque se para alguém a tortura ou o terrorismo são morais, o debate já não é aquele posto pelo Flamarion, de entre dois males, um (terrorismo) ser pior do que o outro, mas a análise em si da tortura e do terrorismo.

Por esta razão, à mera leitura dos textos do Flamarion, constata-se que essa premissa estava implícita. Não tenho mais como citar trechos dos textos porque foram retirados do blog, mas se bem me recordo, no final de um dos textos ele coloca que prefere a tortura ao terrorismo, não porque aquela seja válida, mas sim porque seria necessária em certas circunstâncias, para combater um mal maior, qual seja, o terrorismo.

A honestidade aí é só o início da conversa. Mas quase todas as reações surgidas partiram do pressuposto exatamente inverso, sem fundamentar em absoluto suas opiniões, de que o Flamarion estava a defender a tortura. Um, não lembro quem, lembrava que a tortura era algo horrível, seja feito pela ditadura, por Fidel Castro, por quem quer que seja. Outro, perdendo-se em contestações que de modo algum se referiam ao texto atacado, afirmava que a tortura era imoral, falava em exército de cristãos, etc. e tal. Ambos tratavam da premissa de que tortura é um mal. Coisa que em nenhum momento, creio eu, o Flamarion discordaria. Mas nem um nem outro pareceram muito preocupados em debater o assunto, mas somente em "desmascarar" o autor, se "horrorizarem" diante do "absurdo", se "indignarem" como virgens castas que foram violadas. No frigir dos ovos, não sei se não se pode vislumbrar aí a velha teoria do bode expiatório de René Girard...

Interessante notar que aquele que se valeu de uma argumentação "cristã", sequer se apercebeu que em nenhum momento tomou uma atitude cristã. Pegou em pedras e as atirou e deu por findo o seu serviço.

Estaríamos aí diante de pessoas talvez honestas, mas péssimas leitoras, ou então desonestas simplesmente. Não cheguei a nenhuma conclusão, até porque não me interessa saber. Porque é triste ver na sua plenitude, os "sophomores" em ação. É palavra grega aplicada a péssimos leitores letrados, ou como diz Alexander Pope, os chamados cabeças-duras cultos ou ignorantes letrados.

Desses passamos para os desonestos. Que é certamente aquele que partiu para a ignorância pura e simples ao dizer que o texto era uma apologia do crime, sendo que encaminhou o mesmo ao Ministério Público. E pouco importa aqui se a pessoa é péssima leitora ou não. Se não for, mais desonesto é, ao utilizar deste expediente baixíssimo. E o pior é que, crente que o outro estava cometendo um crime, no mesmo instante nem se apercebe que ao chamá-lo de nazista, crime evidente também cometeu. Nada diferente daqueles artistas que, indignadíssimos com o que um crítico escreveu, pedem aos donos do jornal que o demitam...

E vejam, 90% dos comentários foram nessa base. Sequer entramos no conteúdo do texto do Flamarion ou arranhamos o seu mérito. Estamos aqui a vislumbrar, como naqueles clássicos do futebol, onde ficam aqueles sujeitos próximos ao cordão de isolamento da polícia, a xingar a outra torcida. Esses sequer torcem para seu time, muito menos assistem ao jogo. Particularmente, acho linda a ¿guerra¿ de torcidas, com bandeiras, papel picado, foguetório, cantorias, etc. Se a discussão ficasse nesse "nível", não me incomodaria em nada. Basta ter consciência que isto não é o jogo a ser jogado, e pronto. Mas não foi isto o que ocorreu.

Creio que apenas um comentador dos textos foi realmente honesto e tentou formalizar o debate.

Não me recordo dos nomes das pessoas ou das que lembro, não me recordo qual dos argumentos se valeu, pelo que peço desculpas desde logo eis que não teria problema algum em citá-las aqui, fosse possível o acesso aos textos e comentários. Apenas devo lembrar que, segundo o Flamarion informou, tinha gente comentando usando o nome de outros blogueiros. Segue daí que não se pode afirmar realmente se quem disse o que disse, era realmente esta pessoa.

Salvo engano (cito tudo de memória), o argumento que este último utilizou era que estava incorreta a informação do Flamarion que a ditadura militar iniciou-se em resposta a atos terroristas de guerrilheiros de esquerda ou então, que a tortura teria sido resposta a tais atos. Para ele, a tortura era algo inerente ao regime. Embora o argumento não se dirija à principal questão suscitada pelo Flamarion, qual seja, a tortura é menos pior do que o terrorismo, mesmo assim ele é pertinente e pode-se, através dele, chegar-se à tese principal.

Portanto, aqui abriria-se a possibilidade de um verdadeiro debate, e dos mais profícuos. Porque aí é plenamente possível buscar-se as premissas que responderiam essas perguntas, no caso, a investigação histórica. Mas não houve essa pretensão de ambas as partes. Instalada a controvérsia, irredutível, não haveria meios de através do mero debate retórico, que um "cedesse" diante do argumento do outro. Seria mera repetição dos argumentos à exaustão, sem sair-se do mesmo lugar. Na verdade, não prosseguida com a discussão dialética, a tendência mesmo é da discussão resvalar para a retórica vazia e desta para a erística, como me parece ter sido o caso.


IV

Em razão da confusão havida, o Flamarion fechou seu blog. É uma pena, verdadeiramente. Espero que ele repense essa decisão quando as coisas estiverem mais calmas. Lembro-me do blog do Gustavo Nogy, "O Céu É Dos Violentos", que fechou por razões quase idênticas e ainda hoje sua falta é sentida.

Discussões como essa surgem diariamente entre blogs. Todas não valem a pena. Aquele que admite dialetizar com quem não conheça o assunto ou não tenha a honestidade intelectual suficiente para, em constatando estar errado, abandonar suas antigas opiniões, não só perde tempo como também comete grave erro contra si próprio. E a razão é simples, a partir do momento em que acredita estar realmente discutindo algo de modo honesto e aceita o debate efetuado com desonestidade pelo outro contendor, a reação evidente é também ser desonesto. E aí, o pecado é comum e todos são perdedores.

E pior, a continuação da briga, não pode ser outra se não uma "descida aos infernos", onde o debate desonesto de opiniões e troca de insultos proferidos no calor da discussão passa-se ao uso da ofensa premeditada e fria, perverso expediente psicológico que tranforma a indignação do oponente em estranheza e medo.

E é necessário ressaltar que não estou aqui para defender o Flamarion. Ele próprio sabe muito bem se defender e o estava fazendo. O que aqui escrevi, vale também para o Flamarion, que talvez seja o que mais se envolveu em discussões desleais e inócuas nesse mundo dos blogs. Acredito tranquilamente na sua honestidade, porque não a confundo com sua virulência nos contra-ataques. Comungo de boa parte de suas opiniões externadas no seu blog. Não por outra razão, participo com ele do blog da Sociedade. Mas isto não me impede de externar aqui que ele também erra quando aceita o jogo sujo e faz uso das mesmas armas.

Se conselho fosse bom, não era de graça, já dizia meu avô. Não aconselho aqui quem quer que seja. Mas que não vale a pena, ah, não vale mesmo.


V - Explicações Iniciais

Sim, as explicações iniciais, infelizmente, tiveram que vir ao final deste longo texto. Por uma razão simples, mas tão triste quanto essa forma de discussão em blogs. Adianto-me a elas.

A primeira parte deste texto se trata de um simples resumo e apanhado dos textos de Aristóteles, Emile Boutroux, Éric Weil, Olavo de Carvalho e Chaim Perelman. Qualquer equívoco, portanto, deve ser endereçado primeiro a mim, que então provavelmente errei no recorte das idéias. Somente num segundo momento é que as objeções devem se dirigir aos "responsáveis" pelas mesmas.

Não trouxe este esclarecimento inicial (indispensável por uma questão de honestidade intelectual) em razão de que a teoria que expus tem a contribuição de Olavo de Carvalho. E neste país, a simples menção deste nome impede qualquer debate, qualquer aprofundamento de idéias, de estudos, etc. Ou ele simplesmente é tratado como um desequilibrado mental ou com uma indiferença esclarecedora.

Até hoje não surgiu um sujeito, unzinho só capaz de dialetizar com Olavo de Carvalho. Se bem me recordo, o "melhor" argumento que usaram foi o do "cansei". "Cansei dessa lenga-lenga de revolução gramsciana, farc¿s, globalização comunista, etc. e tal". Ou seja, não diz nada sobre o que Olavo fala, e acredita que ele próprio (o cansado) é a medida de todas as coisas, e portanto, o seu enfado provaria o erro da tese "cansativa". Dispenso maiores comentários pela evidência da fragilidade, senão imbecilidade, do argumento.

Assim, esse esclarecimento vem ao final exatamente para evitar a reação padrão que aconteceria se o nome de Olavo de Carvalho viesse estampado lá em cima. Vindo só aqui, ao menos o sujeito foi obrigado a pensar sobre o que antes foi escrito, para só então, lendo essas linhas finais, chegar ao seu porto seguro mental: "Ah, tinha que ser mais um lambe-botas do olavismo..."

O resto é com a honestidade intelectual desse sujeito ou de qualquer outro para quem a simples menção do nome de Olavo, não o faça desviar do assunto.

posted by Chico | 18:54 Comentários:

Segunda-feira, Março 01, 2004

Em Dia

Voltei mais preguiçoso do que nunca. Como se isto fosse possível. Não estou com saco de publicar aqui. Prefiro sair por aí a ler coisas melhores, como os links aí ao lado. Aproveito e agradeço ao Andre S. a referência elogiosa à minha pessoa humana, no seu excelente Desaforos, que virou Saudade e mais não arrisco dizer porque já deve ter mudado de nome e roupa.

Parabéns pelo aniversário ao outro André, o de Oliveira, cujo Esquisito é das melhores coisas da rede. O chefe Flamarion está de casa nova, muito simpática, ainda que sem as tradicionais pinturas na parede. Sem contar os novos posts na Sociedade.

Você perdeu os mais de 150 comentários sobre o post em que fala sobre sexo, do Alexandre Soares Silva ? Eu também perdi, ainda bem. Isto me lembra aquela pegadinha tradicional em que uns sujeitos ficam gritando de dentro de um terreno murado "41....41.....41.....41" e um passante, curioso, bota a cabeça por sobre o muro para espiar o que está acontecendo. Nesta hora, toma uma tortada na cara. E o pessoal de dentro "42....42....42....42..."

Ah, leia isto, sim ?

Por incrível que pareça, deu praia todos os dias no lixoral paranaense. E ainda escapei de uma boa. Explico-me. Como lá cheguei na quarta de cinzas, era de se esperar que ainda alguns carnavalescos por lá se encontrassem. Assim, ao chegar, vali-me de minha profilática técnica que jamais me deixou na mão.

Além da indumentária praiana, lanço pés de um bom par de meias e vou à sacada. Fico então a observar a rua, a praia, o calçadão, etc. Somente depois de me certificar que esse tipo de gente já se foi, tiro as meias e desço para um passeio à beira-mar. Conforme a MTV me ensinou, só assim consigo evitar doenças sexualmente transmissíveis, como o bicho de pé e a frieira.

Pois bem, enquanto analisava o ecossistema, minha adorável esposa já lagarteava em volta da piscina em busca do sol. Não conseguiu escapar daquela ¿família¿ que comia umas dez tapiocas, fazia uso do cinzeiro de chão (daqueles de corredor de prédio, sabe ?) e estava a decidir se já era hora de ir na "Casa do Siri" ou não, para comer uns espetinhos (sim, a tal casa do siri é na verdade, a "Casa do Camarão", restaurante famoso da orla de Caiobá, cujo atendimento é um lixo e a o preço mais salgado que o mar).

Graças a Deus, não os encontrei em nenhum dos dias. E as meias foram tiradas ali pelas onze da manhã de quinta-feira.

E já que falei em sexo, carnaval, preservativos, etc. e tal, não custa lembrar que quem avisa amigo é, quem adverte é o Ministério da Saúde e se tudo deu errado, ponha a culpa no Papa. Alguém tem que ser responsável, certo ?

posted by Chico | 18:50 Comentários:

Terça-feira, Fevereiro 24, 2004

Vou-me embora prá Pasargada, lá sou amigo do rei.

É chegado o fim dos tempos de ficar odara. O que significa que se inicia a minha temporada. O lixoral paranaense fica até simpático entre março e fim de novembro. Portanto, utilizarei a minha inteligente troca de trabalhar na segunda e terça de carnaval e me liberar na quinta e sexta de cinzas. Meu feriado começa hoje. Volto no domingo.

P.s.: Carlinhos Brown preso. Quem foi que disse que o carnaval não é um tesão ?

P.s. 2: para não lhe deixar no desalento, deixo duas lições de casa. Duas pessoas apareceram por aqui em busca de "pocotopocotopocoto" e "significado de peide". Seu trabalho é (i) conseguir entender porque um simples "pocoto" já não resolveria o problema do primeiro sujeito; e (ii) fazendo uso do método lógico-empírico-dedutivo, responder se o outro sujeito não tem cu ou não tem nariz.

posted by Chico | 19:54 Comentários:

Um PC Para Chamar de Seu

Consequência nada interessante deste episódio Waldomiro e PT corrupto, foi o bate-boca entre Marilena Chauí, a Roberta Miranda dos filosofantes de plantão, e José Arthur Giannotti (que se diz professor daquela, o que evidentemente, depõe contra qualquer pessoa), nas páginas da Folha de São Paulo da semana passada. Não sei se a rinha já terminou, pois só acompanhei o ataque risível de Marilena e a resposta pouco apimentada de Giannotti.

Segundo aquela, a ética é um "espaço simbólico" da política que está em disputa, sendo que os atuais acontecimentos nada mais são do que tentativas de retirar o PT de seu posto de dono da ética. Giannotti, que tempos atrás defendeu um espaço amoral na seara política, veio defender esta tese e responder aos ataques de Marilena.

Marilena é uma piada, como todos sabem. Ela chega ao cúmulo de dizer que a acusação contra o PT é hipócrita porque o caso se deu antes do atual governo e no Rio, durante o governo Garotinho. Como se Waldomiro não tivesse sido nomeado pela cota do PT e como se Waldomiro não fosse hoje integrante do tal atual governo. Mas basta ler a Época desta semana para se saber que Waldomiro manteve a prática agora no governo Lula. Bem se vê quem é hipócrita.

Mas longe de mim entrar neste bate-boca. Eu, coitado de mim, que creio que a ética é atitude individual, decisão de fazer o bem em vez do mal, o certo em vez do errado, não consigo mesmo entender como pode um grupo inteiro ser ético, independente dos atos de seus integrantes.

O tal espaço simbólico da ética só foi reconhecido por Marilena quando esse "espaço" interessou para seu partido e sua ideologia tomarem o poder. A ética pela ética está muito longe de seu ideario. Ou seja, não interessa saber quem é ético ou não, mas sim quem "ocupa o espaço", sendo que só há lugar para um. Logo, se alguém é ético, os outros, pela lógica marilênica, não o são.

Já Giannotti, embora dê mais voltas e possa enganar alguns passantes, também não me parece cheirar bem. Afinal, sua tese de espaços de amoralidade na política nada mais serve do que justificar a manutenção do poder a qualquer preço.

Marilena "descobriu" que a ética serve como instrumento na luta pelo poder. Giannotti descobriu que basta ter o poder para se perceber que a ética é um instrumento desnecessário. No fundo, vê-se que são mais parecidos do que imaginam. Assim como o PSDB e o PT.

George Orwell dizia que "é preciso ser intelectual para acreditar nessas coisas, nenhum homem comum seria tão tolo".

Por isto, esqueça dessa bobagem de perguntar a esses sábios o que afinal é a Ética para eles. Assim mesmo, com maiúscula e valor próprio e absoluto. Não há "espaço" para esse tipo de "especulação" nesse país.

Waldomiro é o menor de nossos problemas.

posted by Chico | 19:52 Comentários:

Domingo, Fevereiro 22, 2004

Breve Reflexão Cristã em um Domingo de Carnaval

É certo que a arte da distinção merece o epíteto de arte. Mais certo ainda é que se trata de estudo básico e introdutório em qualquer filosofia. Nem por isto é algo simples ou fácil. Longe disto.

A tarefa dos jurados na Sapucaí está aí para não me deixar mentir. A ciência é algo sublime e complexo. Ainda assim, sempre que pratico a arte do distinguo, preciso de doses extras de coragem e engov.

Pode ser que tudo seja culpa de um dileto amigo que então me clareou o caminho ao me fazer ver a diferença entre cagar na cara e cagar no olho. Imagine o cu...muito bem....imagine o olho.... Pare, por favor, foi o que disse e ele evidentemente ignorou. Desde então, tenho muito cuidado com pombos.

Dito isto, tem-se não ser fácil a distinção entre um baile de carnaval e uma missa carismática. A pouca roupa, responde-me um amigo. Replico que estivessem todos pelados, não creio que os carismáticos notassem, tal o transe. O sexo, diz outro. Ok, no carnaval você pode comer alguém. Mas nessas missas, a masturbação não fica muito longe. Já ouviu falar em sexo tântrico ?

Vê-se que a distinção é complicada e não é para poucos. Sendo assim, faço como todo mundo hoje em dia e me contento com pouco. Há diferença ? Talvez, mas não interessa. Como diz o Violent Femmes, o que importa queridos, em ambos os casos, é "dance, motherfucker, dance !".

posted by Chico | 15:53 Comentários:

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004

Enquanto isto, no Campo de Concentração....

"Ficamos conhecendo o ser humano como talvez nenhuma geração humana antes de nós. O que é, então, um ser humano ? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios."
(FRANKL, Victor E. Em Busca de Sentido. 10a. edição. Editora Sinodal. Pág. 84)

posted by Chico | 19:06 Comentários:

Beber é não ter a vergonha de ser feliz.

A Irlanda do Norte é um país simpático. Todo país com fama de bêbado é simpático. Daí que me interessei em assistir a seleção brasileira jogar contra o selecionado irlândes. Bêbado estivesse, o jogo teria sido muito bom.

Reza a lenda que será permitido aos jogadores de futebol jogarem embriagados porque o álcool não seria doping. Mentira, porque todos sabemos que o Paraíso não é na terra. Independente da política no futebol, certo mesmo é que Roque Jr. só pode jogar bêbado. Eu se fosse ele dizia que estava, pelo menos. Só isto explica o futebol desse moço.

Questão relevante é saber se você gostou ou não da nova camisa. Aquele cágado em forma de comentarista da Globo, não gostou porque tinha muito verde. Concluo que ele não gosta da bandeira nacional, mas na verdade eu quero mais é que se foda. Sendo amarela quase inteira, os detalhes são detalhes tão pequenos quanto o cágado.

Outra questão mais relevante ainda, foi a tese levantada pelo cágado, de que a bola devia estar diferente porque os jogadores não estariam conseguindo dominá-la "direito". Ah, o efeito da bebida é realmente fantástico ! Aliás, o maior mérito do cágado como comentarista, em toda sua vida, foi aparecer dormindo sentado num dos intervalos de algum jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2002.

Eu não sei quanto terminou o jogo. Saí nos 20 do segundo tempo para tomar uma. O futebol é um vício, Garrincha já dizia. Vargas disse que saiu da vida para entrar na história. Garrincha poderia dizer o mesmo, graças à bebida. Morreu por ela, mas não teria jogado sem.

Para fnalizar, assisti na ESPN Brasil, festa em homenagem a Sócrates. Durante a noite, homenagens, no dia seguinte futebol e churrasco com os amigos. Sempre com um copo na mão. Sempre falando torto. Nunca bêbado. Não é à toa que ele inventou o passe de calcanhar.

posted by Chico | 19:05 Comentários:

Domingo, Fevereiro 15, 2004



Porque nem tudo que é grande é tão difícil de encontrar.

posted by Chico | 15:57 Comentários:

Porque Não Basta

Há dias de delicadeza. Dias em que se acorda com um beijo que te acolhe para além do bom dia. Que parecem estar sempre ao fundo com aquela trilha sonora de canções tristes e lentas.

Dias de olhares. Olhares que pedem, quase suplicam. Dias frágeis, de choro fácil, mas limpo, sem escândalo. O paladar não é exigente, mas quer sabor. O tato precisa do outro. A visão embaça, mas é mais viva. A audição procura as folhas embaladas pela brisa, em busca do sentido de permanecer.

Dias em que o Amor se faz com letras maiúsculas, ainda que em minúsculos gestos. Dias em que ela é tudo. Não completa, não é cara-metade. Ela é você. E você precisa disto. Porque você sabe que ama. Porque você não se esquece disto. Porque um dia será sua vez de ser por ela.

Há dias de delicadeza. Quase sempre, também são dias delicados. E é preciso quem te leve pela mão. Quem ilumine mesmo não vendo o quão escuro está o teu caminho. Enfim, quem aceite o encargo da entrega. Em dias assim, um singelo beijo de boa noite, para ela já basta como um muito obrigado. Não para mim.

"Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte." Cantares 8,6.

posted by Chico | 15:54 Comentários:

Like The Comet

Não entendo quem leia críticas de filmes antes de assistí-los, "para saber se é bom". Quanto mais falam de um filme, menos eu tenho vontade de assistir. Ser do contra é gostoso. Mais ainda saber que você fica puto com essas coisas.

Fazia um ano e meio que não ia a um cinema. Minha média é um filme por ano. Eu sei, eu sei, é um exagero. Mas eu gosto de cinema, confesso. Assisti ao Último Samurai. Se Tom Cruise é o último deles, não me espanta o número de suicídios de japoneses. O filme é bom, em parte. Mais não digo, até porque a incoerência não é uma virtude só da arte. Mas as flores realmente estavam lindas, perfeitas.

E eu lhes pouparei de comentários sobre os mamíferos que assistiram o filme na mesma sessão. Embora o sujeito que não achava a saída para ir ao banheiro tenha valido o ingresso. Tem o Retorno do Rei, mas o aparelho de DVD ficou ainda mais simpático agora. So, see you next year.

posted by Chico | 15:53 Comentários:

Living On The Edge

Sou extremamente pacato. E não viro guerreiro como o gato do He-Man. O exílio é sempre a melhor solução. Como diz o Dante , não entro em discussões em que a vitória é certa. Por isto não entendo os samurais. Fico com Indiana Jones.

Não há graça em escrever se não for para chocar. Equilibro-me no limite. Naquela tênue linha que não separa o seu ódio do meu riso. Não há diques de contenção. Me aconselharam desde cedo a atirar antes e perguntar depois. Tolerância Zero é propaganda. Tiro na nuca é solução. Cuidado com o degrau.

posted by Chico | 15:51 Comentários:

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004

Everything In It's Right Place

Querem me prejudicar. Cobram-me uma carreira. Não é à toa que o Tráfico é o INSS dos pobres. Tudo vale a pena se o saldo não é pequeno. Tornarei-me um orc.

Minto desbragadamente aqui. Adoro palavras difíceis em textos desconexos. Ainda aprenderei a abrir as portas como Kramer. Até lá, fico com meu cérebro, que como o do Homer, adora sair batendo a porta na minha cara.

posted by Chico | 15:52 Comentários:

Promoção Enquanto Durar o Estoque

Não tenho nenhuma dúvida que a maioria dos problemas "psicológicos" se resolve com uma técnica bem simples. Quando estiver em "crise", pergunte-se por que você não se mata. Quando lhe vier à mente a primeira resposta, dê um forte tapa na sua cara, daqueles de estalar (se precisar de ajuda nesta parte, estou à disposição). Repita o procedimento nas duas próximas respostas. A partir da quarta, preste atenção. Anote se quiser. Depois, vá até a janela. Olhe o horizonte. Não o prédio em frente. O horizonte.

Repita esta técnica quantas vezes for necessário. Quando você começar a sentir uma vontade irresistível de rir de si mesmo olhando o horizonte, parabéns, você está curado. Agora, go get a life.

posted by Chico | 15:51 Comentários:

Sessão da Tarde

Sempre que assisto CSI, imagino Sherlock Holmes sentado no cantinho do laboratório, comentando com Watson, "Elementar meu caro, a ciência me substituiu. Mas como acabou de constatar, ainda descubro antes e melhor. O charme, Watson, o charme é imprescindível. Grissom é um bruto citando Sheakspeare. Não resistiria a dois quartos de hora comigo naquela sala escura".

Dostoievski também se encontra em cada fundo de cena de Cold Case. Mas aposto que o russo vai-se embora antes do fim. Não resistiria à câmera lenta e à pieguice. Só se é jogador até certo ponto. Não assisto The West Wing. Basta-me o noticiário regular.

Vem aí a 3ª. temporada de 24 horas. Confesso que me divirto pacas com essa série. Daquelas de lhe grudar no sofá de nervoso. Sinto-me como uma criança esperando o capítulo final da Caverna do Dragão. Dessa vez vai.

posted by Chico | 15:50 Comentários:

Domingo, Fevereiro 08, 2004

Há 1001 Maneiras de Preparar Neston

Dormia bem, não podia reclamar. Passava das oito horas legais diariamente. Não raro chegava a dez. Cumpria a mesma rotina sempre, do que também não reclamava. Após o banho, café da manhã com a esposa que invariavelmente lhe contava os sonhos da noite anterior. Era impressionante a capacidade de superação no absurdo desses sonhos. Já teve de tudo. Até um tapa certa vez ele levou dormindo porque a estava traindo no sonho. E vá dizer que isto não se podia levar a sério. Ele nunca se lembrava de seus sonhos. Achava mesmo que não sonhava, o que tornava aquela conversa, além de absurda, besta. Levava as crianças ao colégio e ia trabalhar. Sempre assim. Naquele dia, não foi diferente. Até a hora da reunião ordinária...

Ele estava lá, sentado escutando o diretor esbravejar contra a falta de garra da equipe, que as vendas já não eram as mesmas, patati, patatá. Todo começo de semana era assim. Naquela reunião, o setor de Araújo era a bola da vez. Escutava ele pacientemente as críticas pertinentes ou não do chefe, quando um estouro dos vidros que separavam a sala do corredor abafaram os esbravejos. Cerca de quinze piratas adentraram. Espadas de base fina e grossa lâmina ziguezagueavam por sobre as cabeças. Todos cheiravam mal e à bebida velha. Alguns com tapa-olho, a maioria de barba. De comum mesmo, os gorrinhos vermelhos amarrados atrás da cabeça. Só um usava um grande chapéu com a tradicional caveira e os ossinhos cruzados abaixo dela.



Araújo estava sem ar, assustadíssimo, sem compreender. Olhou em volta da mesa e viu poucos dos colegas estupefatos. A maioria parecia que sequer enxergava o que acontecia. O pirata de chapéu, certamente o capitão, gritava com o chefe, mas Araújo não conseguia discernir as palavras porque não entendia de onde vinha a coragem do chefe para não demonstrar qualquer incômodo com aquilo. Na verdade, era ele totalmente indiferente aos piratas. Araújo então se desesperou quando o capitão levantou sua espada. Quando ela começava a descer em direção ao pescoço do chefe, Marcelo, seu vizinho de sala, subitamente levantou-se e vestido como um gladiador romano, portava nas mãos uma enorme espada que com ela, evitou o golpe mortal. Araújo, aproveitando da confusão, conseguiu fugir, não sem antes olhar Marcelo, vibrando como nunca, enfrentar os quinze piratas sozinho. Até mesmo uma piscadela para ele, Araújo imaginou ter visto. Saiu correndo, desistindo de chamar os demais, que simplesmente ficavam fazendo anotações em suas cadernetas.

Entrou em desabalada carreira na sua sala. As três linhas telefônicas do escritório estavam ocupadas. Ele se tranquilizou. Certamente os demais funcionários já haviam chamado a polícia. Era hora de ir embora. Atrapalhado e nervoso, derrubou uma pilha de pastas que estava em cima de sua mesa. Automaticamente começou a recolhê-las quando escutou a porta da sala fechando lentamente. O rangido preguiçoso da dobradiça demorou a terminar. Aterrorizado, só conseguia olhar para os sapatos daquele que ali entrara. Eram impecáveis sapatos de couro negro, extremamente limpos e polidos. Formava a parte frontal, larga dos dedos, um pequeno espelho de abóbada de onde Araújo pôde contemplar o próprio rosto. Não se reconheceu. Aos poucos levantou os olhos e pôde conferir quem era.



Um senhor alto, de cabelos e longa barba branca, vestido num fino terno de risca-de-giz, camisas brancas com listras verticais pretas e gravata bordô, com um pequeno lenço da mesma cor no bolso do coração do paletó. Uma cicatriz na face, um cigarro dourado num canto da boca. O chapéu era igualmente impecável. Mas os olhos é que chamavam a atenção. Eram escuros. Olhos óbvios de arquivo, daqueles sem chaves cujo dono sabe de cor onde fica cada coisa. E um deles era independente do resto do rosto. Não era vesgo ou algo assim. Os olhos viravam para onde queriam, mas parecia que ele tinha absoluto controle daquilo.

Araújo levantou-se sem conseguir dizer nada. O olhar de ameaça do homem à sua frente parecia aos poucos aliviar-se. Após uma longa tragada no cigarro cuja baforada cobriu a sala de uma penumbra cinza e cheiro de madeira antiga, o homem lhe disse: "Você pode tentar fugir e vai tentar, mas no fundo já sabe que nós o pegamos..." Araújo mal conseguiu ouvir o que o homem disse porque pensava numa forma de escapar. Mas aquela era a única porta e da janela, dez andares o separavam da realidade do chão.

Após analisar rapidamente a falta de opções, Araújo sequer percebeu que o homem havia sentado à sua frente e examinava suas pastas com olhar de desprezo e nojo. Araújo assustou-se com uma grande sombra que adentrava pela janela, e de imediato viu a ponta da asa de um bicho enorme invadir a sala. Sem pensar e apavorado com o homem à sua frente que mexia agora no bolso de dentro do seu paletó, Araújo virou-se rapidamente e saltou pela janela aberta. Centímetros depois estava sentado no pescoço de um imenso pterodáctilo que já o levava por sobre a cidade. Sua mente já não respondia. Conseguiu apenas vislumbrar o homem na janela de sua sala. Parecia sorrir, mas poderia ser mera impressão causada pelo brilho do cigarro dourado.

Cinco minutos depois, o bicho pousou calmamente na praça em frente à sua casa. Ainda sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, fez um carinho na cabeça do animal que após um grunhido, balançou-se e voltou aos céus. Araújo olhou à sua volta. Havia dezenas de pessoas nas ruas do entorno. Nenhuma parecia lhe dar atenção ou demonstrar surpresa. Salvo aqueles dois meninos que jogavam bola no gramado ali perto, que boquiabertos escondiam-se por detrás de uma árvore. Araújo não teve coragem e foi para casa.



A volta para casa também possuía um ritual, idêntico para todos os dias. A leitura dos jornais no sofá da sala de visita acompanhado de uma cerveja. Brincava com as crianças, ajudava a arrumar a mesa para o jantar e assistia TV com a esposa antes de dormir. Mas naquele dia chegara antes da hora. Não havia ninguém em casa. As crianças chegariam da natação com a esposa dali a meia hora. Pegou o jornal e foi para a sala de visita. Não quis a cerveja. Mas preparou um duplo Jack Daniels que tinha comprado por causa daquele filme do Clint Eastwood. Não conseguiu tomar puro e misturou com as quatro pedras de gelo, água com gás gelada. Começou a ler o jornal, mas nada o fazia prestar atenção. Lera a parte de esportes, sem entusiasmo. A parte de política e de "cidades" simplesmente lhe pareceram fora da realidade. Nunca lia o caderno de cultura, mas chamou-lhe a atenção o título de uma coluna. Parou no terceiro parágrafo. Desistiu do jornal. Ligou o computador para brincar na Internet, o que não conseguira fazer no trabalho, mas tudo lhe parecia devagar e tedioso. Resolveu tomar novo banho. Quando molhava a cabeça tirando o shampoo que lhe escorrera nos olhos, estrondos do lado de fora lhe chamaram a atenção.

Pareciam fogos de artifício, mas eram diferentes. Vislumbrou por entre os olhos ensaboados e através da pequena janela que dali dava para a rua, enormes galeões espanhóis ao fundo do mar, que parecia revolto. Densas nuvens negras cobriam vez por outra a vista, mas não o suficiente para lhe impedir de perceber que havia uma batalha. Os barulhos eram tiros de canhões trocados entre os navios. Aos poucos os navios se distanciavam. Araújo já terminava de se enxugar quando pôde novamente ouvir os barulhos das gaivotas nervosas em cima das pedras.

As crianças chegaram. Algo de diferente nelas, mas não conseguiu descobrir o que era. A esposa preparava o jantar, contando seu dia, enquanto ele colocava a mesa. Terminada a tarefa, não deu chances para que ela soubesse do seu. Passeou pela casa e sentiu falta de livros nas prateleiras cheias de vasos vazios e briquebraques variados. Entrou silenciosamente no quarto das crianças. A mais nova ainda fazia sua lição de casa enquanto o mais velho jogava videogame. Quis jogar com o filho, mas este negou o pedido. Quis ajudar o outro, mas não era necessário. Sem querer, olhou para a única prateleira sem brinquedos. Lembrou-se dos livros infantis que o avô das crianças costuma dar-lhes de presente. Eram vários, mas Peter Pan lhe chamou a atenção, sem saber bem o porque.

Sentou-se na cama debaixo do beliche dos meninos e começou a ler a história. O cheiro do livro então lhe lembrou. Era o mesmo livro que tinha lido quando menino na fazenda do pai. Sentado no balanço montado pelo caseiro debaixo da goiabeira, percebeu-se vestido com aquela velha bermuda preferida de criança e com as chinelas de couro. O cheiro do bolo de fubá e café fresco que a mãe sempre fazia no fim de tarde lhe abriram o apetite. Olhou para a varanda e viu o pai com seu inseparável chimarrão jogando conversa fora com o caseiro, seu Aloísio. Sentiu duas cabeças se aninhando embaixo de seus braços. Eram os filhos. Pediram que ele lesse em voz alta. Assim fez.

Era raro, mas no jantar quis saber tudo sobre o dia dos filhos. Achou o empadão da esposa extraordinário. A esposa estranhou, mas não reclamou de nada.

Acordaram. E com eles, a rotina. Após o longo banho, o café com a esposa e a história do sonho contada como sempre. Ele riu. Era absurdo, mas fazia sentido. Contou então o seu sonho. Os olhos brilhavam. A esposa lhe perguntou se algo havia acontecido. Respondeu-lhe que nada demais. Só que dessa vez, lembrava-se do sonho. Ela achou melhor não entender. Araújo percebeu que em sete anos, estava atrasado pela primeira vez. Pediu à esposa que levasse os filhos para a escola. Não tinha tempo a perder. Não queria ser descontado pelo atraso. Torcia para que Sininho ainda não tivesse saído. Só o pozinho mágico poderia lhe salvar.

posted by Chico | 18:44 Comentários:

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004

Pixote Não Morreu

Fiquei muito feliz com as indicações de Cidade de Deus para o Oscar. É muito raro eu ter a oportunidade de não assistir um filme duas vezes. Creio que agora posso escrever uma tese sobre ele. Como disse o Mainardi: "Cidade de Deus é muito bom. Assisti ontem e hoje não me lembro de mais nada."

posted by Chico | 18:18 Comentários:

Tomou ?

A Parmalat faliu. Eu sempre soube que ser palmeirense era um problema grave de caráter. E o símbolo esmeraldino se coaduna mais com o arquirival incolor. Mas isto não interessa. Proibiram a Nestlé de comprar a Garoto. Eu sempre preferi o Sonho de Valsa mesmo. Ponham a culpa no Michael Jackson.

posted by Chico | 18:17 Comentários:

When Tomorrow Comes

O otimismo é algo assustador. Frase famosa diz que se você sentir duas bolinhas lhe batendo na bunda, não se preocupe porque o pior já passou. Idiotice seria um elogio. Não que o pessimismo seja o ó do borogodó, mas ao menos não faz passar ridículo.

Buda era pelo equilíbrio, modernos dizem-se realistas. Não é à toa que não existem mais circos. Os palhaços estão todos soltos. Mas não creio que seja só eu que se constrange com as propagandas na televisão.

posted by Chico | 18:16 Comentários:

Domingo, Fevereiro 01, 2004



Sempre que escuto alguém dizer "Ou você faz parte da cura ou é parte da doença" concluo que seu estado é terminal e resta rezar para que não sofra muito. Minto, eu quero que sofra e muito.

Aquele que se acha parte da cura, tenha certeza, é doente e sintoma da doença. Nunca vi alguém que seja parte da doença, admitir. Daí que concluo que a doença deva ser sexualmente transmissível.

Eu não sei se acredito em vacinas, nem sei de que doença tanto falam. Por via das dúvidas, ponham a culpa no Papa.

posted by Chico | 18:29 Comentários:

Estatuto do Idoso, Estatuto da Criaça e do Adolescente, Lei de Cotas Para Negros, Lei do Desarmamento, etc.....

"O que sempre fez do Estado um inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso."
Holderlin

posted by Chico | 18:25 Comentários:

Zé Pequeno O Caralho, Meu Nome É Primeiro Ministro

No Corcel II com rodas de magnésio à minha frente, leio o adesivo de que o carro é velho mas está pago. Lembro-me do meu sogro nos idos antigos voltando da praia com um amigo rico, que aos pobres parados no acostamento porque o motor "ferveu", gritava: "Venda esta merda !"

Nunca viajei para o exterior, mas quando for, gritarei o mesmo do avião. Claro, desde que eu já esteja em águas internacionais. Acham um absurdo o avião novo do Lula. Com esse dinheiro, dava para isso e aquilo e aqueloutro e mais um pouco. Eu prefiro ele longe.

Avisam-me os jornais que Zé Dirceu é agora chefe de governo. Estamos quase parlamentaristas. Se for um passo para a monarquia, aceito. Aguardo ansioso a dissolução do Congresso Nacional.

No Manhattan Connection da semana passada, após o Mainardi esplanar o que ele acha melhor para o Iraque, aquele menor de idade respondeu que se isto acontecesse, desestabilizaria a Turquia. "Dane-se a Turquia !" gritou o Diogo daqui do Brasil. Segundo uns e outros, certamente ele estava tentando imitar Paulo Francis.

Neste domingo tivemos o clássico Atletiba aqui no Paraná. Os dirigentes, sempre brilhantes, queriam que o jogo só tivesse uma torcida. A do time mandante. E que assim fosse sempre nos clássicos. Obviamente, todo mundo caiu de pau na idéia imbecil e os dirigentes foram obrigados a desistir da idéia. Vejo que o Lula está fazendo o mesmo neste país, mas só alguns poucos vêem problema nisto. Idéias imbecis caem como uma luva para um povo imbecil. Só entendemos de futebol.

Update: o clássico terminou empatado. A torcida do Coritiba, que jogava em casa, saiu comemorando do estádio. Time pequeno é isto aí. O Atlético ganhava de 1 x 0 e ficou só se defendendo no segundo tempo. No final, os jogadores saíram dizendo que o resultado foi bom porque a obrigação da vitória era do outro lado. Time pequeno também é isto aí.

posted by Chico | 18:24 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 28, 2004

Just Casual Talk

Esqueci de avisar que publiquei na Sociedade. Post do dia 24.

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Sempre quis ter um mordomo. E já disse que sou fã de barbeiro.

posted by Chico | 13:41 Comentários:

Os Estatísticos Contra Atacam

No telejornal de agora da hora do almoço, uma reportagem mostra que as águas do lixoral paranaense são mais quentes que as dos vizinhos estados do sul do país. E agora comprovou-se cientificamente, segundo o "cientista" entrevistado, que quanto mais ao norte do país, mais quente fica a água. A ciência é realmente um espanto de quão avançada está em dizer o óbvio.

Mas enganam-se todos. Aqui é mais quente que em RS e SC porque o lixoral é minúsculo, a jacuzada é em número gigantesco e portanto, o mijo abunda.

posted by Chico | 13:38 Comentários:

Ordem e Progresso

Assaltaram uma agência do Bradesco aqui perto. Dez minutos depois penduraram uma grande faixa: "Fechado Por Motivo de Assalto". Estamos evoluindo, não resta dúvida.

posted by Chico | 13:37 Comentários:

Por que não falo de literatura por aqui ?

Queria que a Academia Brasileira de Letras pegasse fogo bem na hora do chá de um dia com presença total dos "imortais". E que eu fosse o porteiro do prédio.

Queria também ser Paulo Coelho. Da minha parte na posteridade, quero-a em dinheiro e já. Assim posso comprar livros de verdade e lê-los sossegadamente em minha biblioteca privada.

posted by Chico | 13:36 Comentários:

Não costumo frequentar exposições de artes plásticas. Não gosto do cheiro de banheiros públicos.

posted by Chico | 13:35 Comentários:

Li a transcrição do debate entre o Olavo e o Alaor Caffe, ocorrido na USP no final do ano passado e que movimentou o "cenário" blogueiro de "direita". O problema está realmente com Olavo de Carvalho. Em vez de trucar, ele grita que tem o gato. Assim não dá jogo mesmo.

posted by Chico | 13:35 Comentários:

Domingo, Janeiro 25, 2004

Leio na embalagem da minha barrinha de cereal que um dos ingredientes é o "açúcar invertido". E se não for sal ?

posted by Chico | 17:41 Comentários:

Hail, Hail

Eu implico com estatísticas. Eu sei que elas devem servir para alguma coisa. Mas em quase tudo que elas se metem, ninguém mais consegue conversar. Elas falam alto demais e são grosseiras.

Veja-se o futebol, por exemplo. Não há mais possibilidade de se acompanhar comentários nos intervalos e as análises do final do jogo. Fica aquela chatice de que o time A deu 598 chutes a gol, teve 79% da posse de bola, desarmou o adversário 3.839 vezes e teve 1.345 escanteios a seu favor. Mas perdeu de 1 x 0 pro time B que só deu 3 chutes a gol e mais nada. O velho quem não faz, leva, dito em míseros trê segundos já dizia muito mais e melhor do que todas as planilhas desses supostos "experts" em futebol. Não à toa, no chatíssimo campeonato por pontos corridos essas bestas humanas fiquem achando lindo a porcentagem de pontos do campeão, etc. e tal. O futebol não deveria ser chato assim.

E isto é só um exemplo. Em quase tudo as estatísticas se metem para fazer confusão. Na Veja da semana passada, a revista apresenta um economista que "comprovou" por uma batelada de dados, que nos estados americanos em que legalizou-se o aborto, o índice de criminalidade é menor do que nos estados em que o proibem. Brilhante comprovação. Eu não preciso ter uma batelada de dados para afirmar com toda segurança que se legalizarmos os homicídios e os roubos, os índices de criminalidade serão ínfimos. Uma maravilha, não ? Há quem adore viver neste mundo de faz-de-conta.

Mas ele vai mais longe. Munido de todos os dados estatísticos possíveis, ele comprova que uma criança indesejada que viva numa família desestruturada, a probabilidade dela vir a ser uma criminosa é muito maior do que numa família estruturada e em que ela foi desejada. Ou seja, melhor se ela tivesse sido abortada. Hitler pensava que se matássemos todos os judeus, também teríamos um mundo melhor.

Só mais um exemplo e eu juro que paro. Nesta sanha imbecil pelo controle de armamentos neste país, houve uma profusão de dados estatísticos que "comprovam" por A mais B a necessidade de proibi-las. Até agora ninguém me respondeu de que forma esses dados são confiáveis se aquele que, portando uma arma de modo legal, ao evitar um crime contra si ou terceiros não registra queixa ou avisa o IBGE ?

Eu sou exemplo vivo disto. Saindo de um festa na casa de um colega, acompanhado de mais uns cinco amigos, parou um fuscão azul com quatro sujeitos mais do que mal encarados e vieram caminhando em nossa direção. Um dos meus amigos que possuía arma, na mesma hora a sacou e apontou para os sujeitos, que sem dizerem absolutamente nada deram meia volta e foram embora. Quantas vezes isto já aconteceu ? Não se sabe porque não há estatística alguma. Portanto, a estatística apresentada não pode ser levada a sério, mas somente como mais um dado a ser analisado num país em que a polícia não consegue dar segurança à população e o crime orgnizado comanda mais da metade das grandes cidades do país.

Naquela reportagem da Veja, eles informam que o tal cientista recebeu um importante prêmio por seus "estudos". E a revista dá mais um: o do bom senso. É uma pena realmente que me tenham tirado o direito de portar armas. Ainda bem que logo vão me liberar para matar criancinhas nas barrigas das mães. Tudo de muito bom senso.

posted by Chico | 17:40 Comentários:

See You Soon

Tio Neneca estava aflito. Andava de um lado para o outro na sala de jantar. Fumava um atrás do outro sem terminar nenhum cigarro. A casa estava quieta como nunca antes eu tinha visto. Minha irmã estava no quarto, não quis descer. Zezinho e Marquinho estavam na sala de TV, junto com o pai. Ouço mamãe chegar.

Ela entrou rápida e nervosa. Perguntou pelo tio, que já vinha vindo da sala ao lado. Mamãe disse que tia Lucinha não suportou. Eu ia perguntar, mas tio Neneca deu um grito tão alto e começou a chorar tanto que me assustei. Minha mãe lhe consolava e meu pai tinha sumido. Zezinho e Marquinho não tiravam os olhos da TV. Eu não sei porque, mas quis abraçar o tio. Me grudei na perna dele.

Vô Inácio entrou logo depois, com uma cara muito triste e abatido. Nada disse e foi para seu quarto. Minha mãe pediu licença para nós e levou meu tio embora. Não encontrei meu pai. Fui lá para trás da casa, e subi no abacateiro. Desconfio que tia Lucinha não volta mais.

posted by Chico | 17:39 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 21, 2004

A Russa

A coisa ruim, a mulher mais feia do mundo, aquela que não foi agraciada com uma deformidade física porque isto justificaria sua feiura. Uns a chamam de bruxa porque são simpáticos, outras a chamam de Sofia (sim, a do Nazareno) porque se acham divertidos.

Ele descobriu que ela possui um veículo. Imediatamente pensou em quem foi o louco do Detran que liberou carteira para esta ratazana com cara de tamanduá-bandeira. Previu um sujeito ou sujeita qualquer descuidadamente olhando pelo espelho retrovisor e se deparando com aquilo. Ninguém ficaria em condições de continuar dirigindo após esta visão.

Não saberia dizer que veículo era. Bastava a certeza de que veio direto do Inferno. Viu o horror na cara do manobrista do estacionamento, que apesar da pouca idade, perdeu sua inocência em definitivo. Vislumbrou aquele ser disforme de costas, embora não se possa dizer ao certo quando ela está de frente. Um calafrio lhe percorreu a espinha lembrando dos tempos de colégio, o que inclui a faculdade.

Ela se virou e o tempo parou. O Tempo é um filho da puta mesmo. Em câmera lenta ele se movimentou até que ela terminasse de contorcer o que supostamente seria sua espinha e ficar de frente (?) para a rua. Era ela. Impossível duas. Impossível a clonagem.

Ela veio andando com aquele jeito malemolente, sem controle das pernas. Aquele leve tremelique na cabeça que lembrava um Parkinson controlado, a boca sempre aberta e a baba branca ligando os dentes superiores e inferiores, sempre à vista. O cabelo nunca lavado ainda era o mesmo. Sempre do mesmo tamanho. Lembrou-se que muitos desconfiavam que ela já nasceu com aquele musgo pelos ombros.

Os óculos ainda são os mesmos. Ainda bem porque não se pode assim olhar diretamente os olhos da besta, que são mais do que vesgos. O figurino é o mesmo. Camiseta de loja de criança, calça jeans e o indefectível tênis vermelho. E agora também tem uma pastinha surrada carregada na mão esquerda, que ela segurava como se estivesse tendo um derrame.

Ela cruzou a rua e ele ainda sem respirar em frente à janela do segundo andar, na esperança de que ela desviasse do seu prédio. O café esfriava na pequena xícara à sua frente. Mas não havia dúvidas. Embora não se podendo definir a priori se aquele andar era em linha reta, ela entrou direto no prédio. Ele correu então para a porta da frente, trancou-a pela segunda vez, apagou as luzes e mandou a secretária não dar um pio sequer.

Não se sabe em que andar ela fica. Por via das dúvidas, desde então ele tomou as precauções básicas. Nunca voltou ao 13º . Passou a utilizar as escadas para evitar o contato nos elevadores. Nunca mais ficou de conversa fiada nos corredores ou portaria. Medidas básicas mas que eram paliativas, porque Murphy é aliado dela.

Dias depois, enfim, aconteceu. Era final do expediente. Ali pelas sete da noite. Afrouxou a gravata, tirou o paletó, desligou as luzes e trancou a porta. Duas vezes. Desceu pelas escadas tenso. Eram quatro lances até chegar no S2, onde tinha sua vaga de garagem. Quando chegou, as luzes não se acenderam automaticamente, como era o costume. Para se achar, apertou o botão do alarme do carro que com suas duas piscadas lhe avisou onde estava. Em sua direção caminhou lentamente, percebendo o terrível barulho do silêncio. Eis que escutou a campainha do elevador.

Abriu-se a porta do elevador preenchendo a garagem com aquela luz branca sem graça e sem vida. Em razão dela, viu que além do seu carro, havia outro ao longe, num obscuro espaço que nunca imaginou fosse uma vaga de garagem. Como ninguém saía do elevador, cometeu o maior erro da sua vida. Olhou.

E lá estava aquilo. O capeta cujo rosto atearam fogo e apagaram a tamancadas lhe olhou e por segundos ficou parada o fitando. Ele já suava como um porco, estava com a boca seca, as pernas bambas e certamente pálido. Ela disse algo absolutamente ininteligível. Ele tentou responder, mas palavras lhe faltaram.

O horror de Dante no inferno era muito menor do que o dele, posso garantir. Imaginou de tudo naqueles instantes. Cobras, lagartos, aranhas, bichos nojentos saindo dos bueiros daquele sub-solo vindo se encontrar com sua rainha. Um cheiro forte e fétido nublaria sua mente. Um trono feito de encanamentos e borracha antiderrapante surgiria de dentro do segundo elevador e a rainha das trevas declararia aberto o julgamento.

Ele já estava praticamente dentro do carro quando ela conseguiu se aproximar. Ela quis lhe cumprimentar como gente, dando beijinho na bochecha, quiçá dois, ó horror, e se fossem três ? Ele se abaixou, fingiu ter derrubado algo. Ela continuava falando e ele já não sabia se estava respondendo. Tudo acontecia muito rapidamente mas parecia que levava anos. O elevador fechou as portas. A luz da garagem não acendeu mesmo.

Felizmente, já não se sabe narrar ao certo, o que aconteceu. De suas lembranças, apenas flashs dele ter pego um pedaço de cano que jazia na garagem, de longa data sem serventia. Gritos indefiníveis. Alguma coisa respingava nele, mas ele não quis saber do que se tratava. Após alguns golpes no vazio e outros certeiros, sentiu algo que parecia uma mão na sua cara e o cheiro daquilo que parecia ser o cabelo da besta em forma de besta. Sufocado, desmaiou.

Acordou já no hospital. Estava no soro e ninguém no quarto. Chamou a enfermeira que então lhe contou que o porteiro do prédio havia escutado gritos vindo da garagem e chamou a polícia que o encontrou desacordado ao lado de um bicho gigante morto. Chamaram uma ambulância e ele então estava ali, somente por precaução, já que as escoriações não eram graves. Então adentrou o quarto um policial que lhe perguntou sobre o acontecido. Explicou o que acima lhes narrei, escondendo um ou outro detalhe, como por exemplo, a existência da besta em forma de besta.

O policial avisou que o bicho foi levado para o laboratório de uma universidade onde fariam estudos para descobrir afinal, o que era aquilo. Ainda aquela noite passou no hospital, sob observação. O sono não foi tranquilo, como seria de se prever. Acordou assustado várias vezes. O pesadelo era o mesmo, mas sempre inacabado. Quando chegava a hora em que ela falava o "õrã, õrã, võcê põr ãqûî ! Lêmbrã dê mîm ?", ele acordava banhado de suor e tremendo de medo.

Ele nunca mais seria o mesmo, como gostava de dizer. Jamais esqueceria o dia em que desceu ao inferno e dele retornou. Mas a vida continuou. Hoje já faz treze meses desde o fatídico dia. Já não tinha medo mais dos elevadores e até na garagem tinha voltado a guardar o carro.

Até esta tarde. Que estava agradável. Como sempre, ele fez seu ritual. Um breve intervalo. Um cafezinho que sempre tomava de pé, olhando pela janela o movimento da rua em frente. Olhou o estacionamento que já não lhe lembrava nada. Reparou no manobrista, o mesmo guri, já mais corado. E então, viu novamente o horror nos seus olhos.

Seu coração bateu em velocidade absurda. Ficou fraco e não conseguiu mais segurar a xícara, que caiu e se quebrou fazendo um estridente barulho. Sentiu que perderia os sentidos em poucos instantes, o que efetivamente aconteceu. Não sem antes ter olhado aquela mão esquerda, em forma de derrame, segurando a pastinha marrom atravessando a rua.

A última coisa que se lembra foi de ter ouvido um riso gelado e seco vindo da rua e em seguida alguém falando atrás dele: "Õrã, Õrã..."

posted by Chico | 21:03 Comentários:

Domingo, Janeiro 18, 2004

Fla x Flu

Nesse encontro turístico entre presidentes de países das Américas, realizado no México recentemente, Bush, para atacar a ditadura cubana e os suspeitos governos da Venezuela e do Haiti, tratou a liberdade como direito "divino".

Levantei uma sobrancelha e cocei meu queixo, na falta da barba. E lembrei-me de Capeaux, falando de Jacob Burckhardt: "não existe poder temporal de direito divino; mais provavelmente será de direito satânico".

E confirmando minhas suspeitas, vejo que Hugo Chavez rapidamente respondeu: "a César o que é de César, a Cristo o que é de Cristo". Não é por nada não, mas acho que o Bush deu a desculpa que esse cara nem procurava...

Os fundamentos do Estado laico. Quais são ? Liberdade, igualdade, fraternidade ? Da primeira vez, rolaram cabeças. Depois ? Ora, por onde passa um boi, passa uma boiada.

Os gays querem se casar. A Igreja não deixa. O Estado, quase. Mas uma coisa nada tem que ver com a outra. Afinal, o casamento do Estado não é o mesmo casamento da Igreja. Mas as mulas homossexuais fazem passeatas em frente às igrejas querendo o "reconhecimento" do casamento entre gays. Afinal, vocês querem ter papel passado ou casar de branco ? E as mulas "religiosas" não se contentam com a proibição da sua Igreja. Querem a do Estado também. A César o que é de César.

O Estado francês proibiu nas escolas, manifestações religiosas através do uso de apetrechos, como por exemplo, cruzes e os lenços das mulheres mussulmanas. A medida é contra mussulmanos. Há um limite de "tamanho" no apetrecho, o que praticamente retira o crucifixo pendurado no pescoço, da proibição. O fundamento é óbvio: o Estado é laico, a escola é do Estado, logo... Bons tempos aqueles em que a briga era pela liberdade de não usar uniformes. A Cristo o que é de Cristo.

A Cássia Kiss disse na Veja que abortou um filho em 1987, para não atrapalhar a carreira. Perdeu o marido que amava e se arrepende amargamente do que fez até hoje. Criminosa !, gritam os pró-vida. Ela sabe, respondo baixinho para não ser confundido com os pró-liberdade de matar. E isto basta. O resto é confissão e perdão. Com Cristo.

Ainda na Veja, leio que aquele Procurador da República que certamente nunca comeu ninguém, Luiz Francisco de Souza, lançou um livro intitulado "Socialismo - Uma Utopiã Cristã". O Apocalipse descrito na Bíblia, já dizia: "Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás, que dizem que são judeus, e não são, mas mentem." (Apoc. 3:9)

Voltemos a Carpeaux. Cita ele, em um de seus ensasios (Leviatã, encontrado nos "Ensaios Reunidos", vol. I, editoras UniverCidade e Topbooks), um diálogo havido entre Frederico, o Grande e o bispo de Culm. Disse o Grande ao bispo que sua "esperança era de chegar um dia ao paraíso, talvez escondido por baixo do pálio de um dos seus bispos católicos". No que o bispo lhe respondeu: "Vossa Majestade encurtou tão implacavelmente a minha capa, que não posso esconder por baixo dela contrabando nenhum".

A César o que é de César, a Cristo a que é de Cristo. Palavras do Senhor, Graças a Deus. Mas muito mal usadas nesse nosso tempo. E cada vez mais São Paulo Apóstolo está com a razão: "Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus".

posted by Chico | 17:07 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 14, 2004



Johnny Cash. Ícone americano morto no final do ano passado. No fim da vida, já debilitado, gravou quatro discos de uma série intitulada American Recordings. Regravações de famosas canções americanas. Tem de tudo. Dos Beatles ao U2, passando pelo Elton John. Aliás, a versão de One, do U2 ficou uma obra prima.

Os discos devem ser ouvidos como um inventário da vida de Cash. Embora poucas canções sejam de sua autoria, todas ganham uma abordagem tão original de Cash, que acabam se tornando mais suas do que dos seus compositores originais. E talvez isto se explique pela entrega de Cash. Acho que entrega é um termo exato neste caso. Em cada canção, cada acorde tocado e sílaba cantada, percebe-se claramente um lamento, um testemunho, uma confissão de Cash.

Se é verdade que haverá um dia em que seremos obrigados a nos confrontar com o que fizemos de nossas vidas, este dia, para Cash, são condensados nesses quatro discos, em forma de música. A sinceridade de Cash me parece tão flagrante e tão bela que certas canções tomam ares transcendentais. Cash já não era deste mundo.

Uma canção em especial se destaca. É do último álbum da série. Hurt, do Nine Inch Nails, que citei no post abaixo. Com um violão e um piano poderosos, a versão de Cash para essa pesada canção é uma das pérolas mais maravilhosas já gravadas. A canção é tão tocante que é impossível ficar impassível diante da sua audição. Ouvir Cash, como que se confessando, rezando mesmo, cantar no embalo daqueles acordes vigorosos e sempre crescentes:

What have I become / My sweetest friend / Everyone I know / goes away in the end / And You could have it all / My empire of dirt / I will let you down / I will make you hurt.

Mas aqui, por um desses milagres do acaso, algo mais se juntou para dar significado a esta canção. Foi o videoclipe dela. Um dos mais belos já feitos. O clipe é todo entrelaçado por imagens de filmes de Cash, da juventude e carreira do cantor, com cenas de Cash, hoje, em casa, sozinho, ora sentado desolado em sua cadeira, ora no piano, ora com seu violão. Nas cenas finais, a esposa de Cash aparece atrás dele, simplesmente olhando-o, com carinho, resignada e comovida. Trechos da crucificação de Cristo também surgem. Era um homem se entregando. Mas com uma dignidade tamanha, que não poderia ser outro o resultado final.

O clipe simplesmente emociou os EUA inteiro. Bono, cantor do U2, disse que chorou mais nos 3 minutos do clipe do que em 2 horas de qualquer filme. O compositor da música, Trent Reznor, ficou sem palavras, profundamente comovido após assistir o clipe. O diretor do mesmo, conhecido de Cash de tempos idos, afirmou que não quis fazer um obituário do cantor, mas simplesmente contar sua história. Ainda bem que assim o fez, sem estrelismos e pretensões outras, porque é a vida de Cash o que jorra do clipe. Nada mais emociona do que um homem, no final de sua vida, ter a coragem de jogar suas pérolas aos porcos. Cash teve seus dias de porco, mas soube burilar como poucos suas pérolas. E caridosamente nos ofertou. Que ele nos redima. E que ele, como diz os últimos versos da canção, possa ter encontrado seu caminho, que evidentemente não seria neste mundo:

If I could start again / A million miles away / I would keep myself / I would find a way.

Assista o clipe aqui.

posted by Chico | 17:02 Comentários:

Domingo, Janeiro 11, 2004

Qualquer Canção

Rememorando os primeiros passos vacilantes deste blog, lembrei do que deveria ter sido o primeiro post, mas que nunca saiu do "papel". Escrevia eu sobre canções tristes. De amor, de sofrimento, etc. e tal. Mas nunca gostei dele. Por mais que eu escrevesse, nunca conseguia dizer o que realmente queria dizer. Ficou ali guardadinho na gaveta do HD, juntando poeira e clusters perdidos. Depois de um tempo, relia e achava pior do que antes. Nunca o publiquei.

E nem o vou porque agora o deletei para sempre. E por uma simples razão. Enquanto lia meus posts antigos e me lenbrava dos nunca publicados, aproveitei para ouvir antigas canções de antigos cd's que há tempos não eram convocados para o time titular. E descobri porque nunca gostei daquele primeiro post, por mais trabalhado como o foi. Diz aí Chico, que não sou eu, mas o Buarque:

Qualquer canção de dor / Não basta a um sofredor / Nem cerze um coração rasgado / Porém, inda é melhor / Sofrer em dó menor / Do que você sofrer calado.

Era isto mesmo. Jamais o que eu poderia falar sobre tais canções chegaria perto do significado de um dó menor ou lá menor. Preferi portanto, ficar calado. E é fácil compreender isto. Por exemplo, pegue-se o trecho final de "Fake Plastic Trees" dos malucos do Radiohead. Quando a letra "If I could be who you wanted.... if I could be who you wanted... all the time... all the time" surge daqueles arranjos delicados e tristíssimos, confesso que quase choro. Me emociono. Falaria disto naquele post, mas prefiro continuar ouvindo o outro Chico:

Qualquer canção de amor / É uma canção de amor / Não faz brotar amor e amantes / Porém, se essa canção / Nos toca o coração / O amor brota melhor e antes.

Tem quem ache "pobrinho" essas quaisquer canções de amor e de dor. "Só me emociono escutando Chopin, aquilo é música de verdade". Concordo, mas e dái ? Não dá para sofrer ou se emocionar escutando "Hurt", na versão do Johnny Cash ou "Detalhes" do Roberto Carlos (sim, "Detalhes" do Roberto Carlos. Estou me lixando para essa careta feia) ? É claro que dá.

Aliás, vai me desculpar, mas para sofrer pela bem amada sou mais os "pobrinho" mesmo. Aliás, desconfio daquelas "profundidades" sentimentais de uns e outros. Ninguém sofre de modo chique. Talvez se demonstre de modo chique. Na dor do fim, então lá no fundinho, aquele mesmo que você não tem coragem de ir quando tomou aquele pé na bunda, quem vai estar mesmo é o Tim Maia cantando "Me Dê Motivos".

Há quem discorde, por óbvio. Mas a esses nada digo, pois o Tim Maia os assombrará o suficiente. Por favor Chico, termina o que começamos:

Qualquer canção de bem / Algum mistério tem / É o grão, é o germe, é o gen da chama / E essa canção também / Corrói como convém / O coração de quem não ama.

posted by Chico | 20:09 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004



Um ano já. Me diverti pacas por aqui. Enquanto assim continuar, não paro. Embora o tempo tenda a ser cada vez mais escasso. Datas assim nos põe a pensar e a revisar. Desde o princíipio aquela voz na minha cabeça berrava, foi diminuindo o volume, mas ainda permanece susurrando diabolicamente: "a quem você pensa que engana, hein, hein ?". Por vezes ela tenta me enganar, imitando Fábio Jr. e me dizendo o mesmo com outras palavras: "Que que há, que tá se passando com essa cabeça...".

A mim, penso que não me engano, embora não tenha tanta certeza. Alguns desavisados certamente já enganei. Alguns amigos também, embora nunca me tenham falado nada. Mas se bem conheço, caíram como patinhos. Não criei inimigos, ainda, surpreendentemente.

E lembrar que no meu período de faculdade, 2/3 dos 70 alunos da sala, se pudessem, me matariam sem dó nem piedade. Uma em especial que, tendo em vista seu talento nato para varrer o chão do salão de festas após uma churrascada, indignou-se quando joguei, do sofá onde estava sentado e bebendo a décima quinta lata, uma moedinha de cinquenta centavos em sua direção. Vai entender esta gente.

Mas acho que ainda arrumo um inimigo. Apareceram alguns analfabetos para arranjar confusão na caixinha de comentários, mas nada que chegue aos meus pés. Porque é claro, para ser inimigo o sujeito tem que ser tão bom quanto eu. (Ninguém se arrisca ? Ói que eu estou provocando, hein ? Tenho a pachorra de me achar o bonzão, embora meu carro não seja vermelho. Não vai demonstrar que está indignado ? É, quem tem cu, tem medo)

Mas enfim, voltando ao assunto. Escrevo porque tenho que escrever. Tenho que, entende ? É como almoçar, jantar, dormir, tomar banho... Muitos posts eram textos anteriormente escritos e perdidos no meu HD. Antes deste blog, cansei de enviar e-mail's incomodando amigos com considerações sobre os fatos do dia ou outras besteiras mais. Quando descobri os blogs, bem, arranjei mais um caderninho para escrever minhas bobagens. Só isto.

"Mas terás leitores !", um sopro de vento gelado sussurrou ao meu ouvido então. Pois que venham, respondi e continuo a responder. Não cobro nada e portanto, lê quem quiser. Não me envaideço da existência de leitores ou comentadores, ou me irrito com idiotas que se acham no direito de me xingar pelos cometários. Pago o preço, assim como pago para ter comida, água para o banho, etc.

Não tenho muito mais a acrescentar. Muito do que sei e até do que não sei já foi respondido pelos filósofos Calvin & Hobbes, o que me basta. "Por que escrevo ?" , pergunto-me socraticamente. E eles respondem:

"Calvin: - Este livro 'Ligue os Pontos' põe-me doído ! Olha para isto.
Hobbes: - É um pato.
Calvin: - Eu sei ! Quem quer desenhar um pato ? Eu é que não. Eles obrigaram-me ! Fui manipulado ! O meu talento artístico nato foi usado contra a minha vontade para dar a uma entidade coletiva a idéia base de ave aquática ! Que ultraje !
Hobbes: - Outro duro golpe na inteligência criativa.
Calvin: - A partir de hoje, ligarei os pontos à minha maneira."


"Disponibilizar ou não disponibilizar comentários por aqui ?", dialogo à la Hamlet com os dois, que me intrigam:

"Calvin: - E se alguém nos chamar de 'dupla de peripatéticos patéticos' ?!
Hobbes: - Nunca ouvi alguém dar-se ao trabalho de rimar insultos esquisitos.
Clavin: - Mas não devemos ter a resposta pronta ?"


"E se surgirem devotos ? E se eu correr o risco de virar um exemplo, um motivo, um modelo ? E se vierem atrás de respostas ?", devaneio à lá Nietsche ou Paulo Coelho, e eles me acalmam:

"Calvin: - 'Viver cada momento' é o meu lema. Nunca saberemos quanto tempo temos. Amanhã podemos estar atravessando uma rua e 'Blam', uma betoneira nos atropela ! Então nos arrependemos de ter esquecido os prazeres ! Eis porque eu quero 'viver cada momento'. Qual é o teu lema ?
Hobbes: - 'Sempre olhar antes de atravessar a rua'."


"Mas eu sou mau demais. Oh, horror, eu estrago a diversão dos outros em concursos públicos , em viagens de turismo , em amigos secretos ... Já mandei gente para o hospício, e se me deixassem, tinha matado outas ... Não seria este blog então um atestado ou um passaporte para o inferno ou, no mínimo, um caminho para a solidão e o esquecimento ?" - agostinianamente me confesso. Mas Calvin & Hobbes, assim como Marx pensava que tinha, tem resposta para tudo:

"Calvin: - Se o céu é bom e eu gosto de ser mau, como poderei ser feliz lá ?
Hobbes: - Como irias parar ao Céu se gostas de ser mau ?
Calvin: - Digamos que eu não faria o que queria fazer. Supõe que eu levaria uma vida irrepreensível. Supõe que negaria minha verdadeira natureza !
Hobbes: - Não sei se terei imaginação suficiente.
Calvin: - Talvez o Céu seja um lugar onde nos deixem ser maus."

Ah, me lembrarão aquela frase do Henfil, de que "se não houve frutos, valeu a beleza das flores...se não houve flores, valeu a sombra das folhas....se não houve folhas, valeu a intenção da semente". Desculpe, mas não tem nada disso não. Isto aqui é um cactus já plantado. Não se interessa em saber se você o acha belo ou horrendo. Ele sabe que é belo. Ele não precisa do seu regador de lisonjas ou do seu saco de esterco. Ele bebe água bem de vez em quando e só. Aguenta invernos e verões. A estiagem foi feita para ele. Teme apenas as enchentes. Porque não há quem sobreviva aos afagos dos tapinhas nas costas.

Quer saber, ele está de parabéns.

posted by Chico | 20:40 Comentários:

Domingo, Janeiro 04, 2004

2004, O Terceiro Depois De 2001

Queria ter algo a dizer sobre o ano novo. Foi uma semana agradável, pode ser ? Sem novidades. Tudo como era dantes no quartel de Abrantes.

Havia uma japonesa e seus chapéus, boinas, lenços, etc. Usava um para cada dia da semana, sendo um pela manhã, outro pela tarde. De noite ela repetia o da manhã. Lembrei-me das Sete Faces do Dr. Lao. Mas são lembranças doídas demais para mim, pois me recordo de Benji, o cão benfeitor. Sinto-me deveras emocionado neste instante. Melhor pensar nos Aventureiros do Bairro Proibido ou então no Curso de Verão. Bons tempos aqueles. Não sei se ainda o são. Trabalho sempre na parte vespertina e da sessão, me sobra os avisos na hora do Jornal Hoje.

A lei de Murphy já se fez presente neste novo ano. Ou o que mais explicaria aquela velha de 97 anos que foi encontrada com vida depois de oito dias debaixo dos escombros do terremoto no Irã ? Muito cuidado nos inícios de ano, é uma de minhas regras.

E qual foi o primeiro bebê de 2004 a nascer na sua cidade ? E quantos casos de queimaduras de primeiro grau por causa da bebida alcóolica ? Viu o tamanho do engarrafamento ? Além de Belo Horizonte, onde mais já teve enchente ? O começo de ano é bem chato.

Já posso tirar minha cueca branca nova ou ainda estamos sendo ridículos ? Uma velha quis pular as sete ondas na meia-noite. O mar estava agitado porque é gente boa. Foi preciso um salva-vidas. Ela se engasgou com as uvas-itália.

Por falar neles, aqui no Paraná três paulistas mocorongos viraram notícia. Final de tarde foram passear numa ilhota que fica a uns 50 metros de distância do continente e que é ligada por uma trilha de pedras. Veio a noite e a maré cobriu as pedras. Os mongos ficaram com medo de pular, dar duas braçadas e chegar no continente. Até Benji riria disso, vivo estivesse. Resultado: 8 salva-vidas chamados para socorrer os energúmenos, que ao menos se recusaram a dar entrevista. Engraçado é que de dia, não há 8 salva-vidas naquela praia...

O Brasil já começou sendo mais ridículo do que no ano passado. Agora, começamos a fichar os americanos que chegam por aqui. Assim como eles fazem conosco por lá. Depois nos gabamos de sermos anti-americanos. Ora, a gente imita tudo que vem de lá. E somos uma imitação bem chinfrim, porque pegamos em 90% dos casos, o que tem de pior, como acabamos de comprovar.

E isto é só o começo do ano. Ainda virão as falas do Lula, os bonés do Lula, as viagens do Lula, as gafes do Lula. Espero que ele peide em rede nacional desta vez. Tem gente feliz porque sá faltam três anos. Eu acho que são sete, mas deixe estar. E o primeiro nem foi tão ruim assim. Ainda falta 60% da nossa renda para ser confiscada. Eles começaram de leve.

Queria ter algo a dizer sobre o ano novo. Que venha 2005 é tentador, não ?

posted by Chico | 17:46 Comentários:

Sexta-feira, Dezembro 26, 2003

Feliz Ano Novo

Meu Natal foi uma beleza. Com um atrativo à mais. Dia 25 estreou o último "Senhor dos Anéis". Enfim estreei meu taco de beisebol que ganhei há 10 anos atrás. Peguei dois vestidos de Gandalf e uma família inteira, cujo pai era Aragorn; a mãe, a fada que não sei o nome e os filhos, estavam de hobbits. Foi muito agradável.

Oh, assistirei sim. Mas só depois que essa escumalha terminar de assistir suas cinco vezes seguidas. Ali pelo fim de fevereiro ainda pego em cartaz, tenho certeza.

Vou me encharcar do cheiro do mar e volto lá pelo dia 05 de janeiro. Enquanto isto, fique à vontade. Tem cerveja na geladeira. Se quiser chá, por favor se retire. A porta da rua é a serventia da casa.

posted by Chico | 18:05 Comentários:

Segunda-feira, Dezembro 22, 2003



O Natal sempre foi muito esquisito. Uma tensão no ar, uma correria sabe-se lá para que, uma boa vontade repentina, uma falta de paciência constante, angústia generalizada, stress e muito barulho. Onde você vai é só barulho. E então as pessoas acham que "o ano está acabando muito depressa".

Tenho poucas certezas. Natal em família é uma delas. O Natal ser muito melhor do que o Ano Novo, outra. E eu sempre gostei. Poupe-me da "constatação" que é uma festa para o "frio" e não tem sentido num país tropical. Você é que não tem sentido algum. Suma daqui.

Igualmente o "consumismo" do momento em nada me incomoda. Consumo o ano inteiro. Fico querendo aquele livro, aquele cd, aquele DVD e aquele terno o ano inteiro. Ainda bem que tem uma data a mais no ano, além do aniversário, onde posso ganhar tudo e mais um pouco. Me incomoda sim, o griteiro e a correria, mas até um débil mental sabe que isto "faiz parti".

Blá, blá, blá... não lhe dou ouvidos mesmo. Já disse para sumir daqui e leve sua catilinária anti-capitalista com você. Ah, você vai se eu lhe der só um bom motivo para a troca de presentes nesta época do ano ? Lhe dou três. E são Reis Magos.

As boas ações já me irritaram antes. Hoje, não. Que existam ao menos uma vez no ano. Que seja hipócrita, que seja ridícula. Que a Cida, diarista aqui de casa, possa ter ao menos um jantar no ano, com mesa farta e roupa "nova". Isto me convenceu.

Experimente olhar a noite do dia 24, quase 25. Repare como as coisas vão se acalmando, como o silêncio já não angustia. Como tudo começa a fazer sentido. Talvez você não saiba colocar em palavras este sentido, mas você sabe que ele está presente. Depois da ceia, da troca de presentes, da constatação que você exagerou em tudo, na comida, na bebida, na roupa, nos presentes, nos pacotes, nas piadas, repare no alívio. É, no alívio.

Não é fácil, óbvio, esperar o nascimento de um Deus. Vai saber o que é isso ? Eu tenho certeza que você não sabe. Não adianta forçar, você não sabe. É, você mesmo. Eu sei que ficou quieto, mas continua por aqui. Pouquíssima gente sabe.

Fique com suas "verdades". Você arranca a barba do Papai Noel e acredita piamente que "provou" que ele não "existe". Não tem muita diferença do pessoal que decidiu crucificar Jesus. Eles só foram mais cruéis. Embora seu priminho de quatro anos não veja muita diferença entre você e eles.

Eu não sei o que significa o nascimento de um Deus. Mas desconfio. E fico esperando o alívio.

Feliz Natal para você também.

posted by Chico | 18:19 Comentários:

O Assombro das Noites

Em 2001, quando li esta mensagem de Natal (para ler, basta rolar a barrinha lateral até o final. Ela está lá, em negrito e centralizada.), por um impulso que certamente nunca mais se repetirá, enviei a mesma para um monte de gente. Ingênuo, eu sei. Me poupo de comentar as "consequências".

Sempre que chega o Natal, como aconteceu em 2002, eu a leio. A vontade de dividir com amigos, principalmente, ainda permanece. Mas já não me iludo. Neste ano de 2003, era o único post certo. Não será.

Deixo o link para sua leitura, mas não me acho digno de aqui expô-la. Simplesmente porque não tenho como defendê-la, se preciso fosse. Me falta quase tudo. Prefiro então, porque mais condizente comigo, publicar esta pequena crônica do cansado Carlos Heitor Cony, que dia desses saiu na Folha de São Paulo. Despercebida, é claro.


"O Assombro Das Noites

Nunca esqueci a noite em que, acordando de um pesadelo, vi luz acesa na sala e fui ver quem estava lá. Ajoelhada diante da mesa, cabeça baixa, terço nas mãos, tia Zizinha rezava, madrugada alta, tudo em silêncio, ela magrinha, parecia um passarinho molhado, sentindo frio.

Era devota, a minha tia, não deveria ficar impressionado, mesmo assim fiquei. Sabia que ela rezava por todos nós, por mim, pelo meu avô que estava doente, pelo mundo inteiro. Evitei que ela me visse e voltei para a cama, perdera o medo do pesadelo, sabia que os fantasmas não mais me assustariam.

Anos depois, muitos anos depois, viajava com o Otto Maria Carpeaux, fazíamos palestras agendadas por diretórios de estudantes, centros de estudos, era um mambembe não-remunerado e estranhíssimo, pois Carpeaux era gago, eu falava mal e pronunciava as palavras de forma errada, mesmo assim, havia gente que deseja ouvir-nos.

Em Florianópolis, num hotel modesto, acordei no meio da noite e olhei para a cama ao lado. Estava vazia. Carpeaux sofria de insônia, imaginei que ele, sem fazer barulho, na ponta dos pés, tivesse saído do quarto, tomando cuidado para não me acordar.

Não acendi a luz, mas saí da cama, fui à saleta anexa ao quarto, que também estava escura. Voltado contra a parede, numa direção que eu não podia determinar (Roma? Meca? Jerusalém?) Carpeaux estava de joelhos, cabeça baixa, os braços estendidos, como um anacoreta medieval, perdido num deserto sem estrelas.

Carpeaux era judeu vienense, convertera-se ao catolicismo, segundo alguns, para conseguir um visto no Vaticano que o tirasse da Gestapo, que o procurava. Eu sabia tudo sobre Carpeaux, menos o seu passado europeu, sobre o qual ele nunca falava. Não frequentava igrejas, evitava qualquer discussão sobre temas religiosos.

Tia Zizinha... Carpeaux... Uma noite dessas, tomo coragem e fico de joelhos diante de meus espantos."


Tenho meus espantos, é verdade. Mas meu problema já não é mais coragem. Porque não é de outra forma que leio aquela mensagem de Natal, senão de joelhos.

posted by Chico | 18:17 Comentários:

Quinta-feira, Dezembro 18, 2003



Fim de ano é inevitavel. Me esquivo, chego a brigar, mas não tem jeito. Ao menos de um amigo secreto, acabo participando. Esta é A coisa mais idiota que já inventaram na face da Terra.

Eu até que tento estragar no dia, mas não dá muito certo. Cantar "com quem será, com quem será, com quem será que fulano cai casar..." quando um sujeito vai receber o presente da sujeita, é engraçado, as caras vermelhas e tal, mas passa rápido. Ficar gritando "Hum, não gostou, hein ?", de modo sério e grave, depois do sujeito ganhar um vale-cd também é alívio passageiro por demais.

Já. Já tentei ser sincero na minha vez e não adiantou. Acharam que eu estava brincando para "dificultar" a "descoberta". E ficar fazendo o óbvio também cansa. Hã, o óbvio ? Sim, o de sempre:

- Meu amigo secreto é uma pessoa especial, muito divertido, é homem, se veste muito bem...

- É o Alfredo !!! - respondo, apontando para o Alfredo que é um sujeito pobre, gordo e que não se veste bem de maneira alguma, mas que evidentemente ninguém dizia isto em voz alta.

- Não ! - rapidamente o da vez me corta, ficando embaraçado. Alfredo riu. - Bom, voltando aqui. Esse ano ele foi um compnheiraço aqui na firma...

- É o Jaime !!! - aponto para o mais filhodaputa de todos os funcionários que não move um dedo por ninguém e todo mundo sabe, inclusive ele.

- Não, pare de atrapalhar ! - o da vez começa a suar. Jaime inclina levemente a cabeça para o alto e finge desdenhar. -...bom, ele tem cabelos escuros, olhos claros, tem uma namorada misteriosa que não apresentou para ninguém ainda....

- É o Túlio !!! - aponto para o casado, com a esposa ao lado.

- Chega, não tem nada a ver. É o Tito. Estraga-prazeres... - Tulio está visivelmente constrangido e sua esposa o fita com ódio no olhar.

Essas coisas cansam demais. O espírito da idiotia é mais forte e a brincadeira sempre segue em frente. Dizem que eu não entendo o espírito da coisa. Engano, vocês é que não entendem de espírito.

Os piores são aqueles em que todos os participantes são muito amigos. Aí tem sempre uma besta que aproveita a ocasião para fazer confissões. Sorte minha que não sou alérgico.

Mas o mais triste é que sempre tem um limite máximo de preço do presente. Não entendo esta sanha igualitarista até nisto.

Preço mínimo, vá lá, porque filhosdamãe iguais à minha pessoa não vão sacanear a pobre alma, com presentes de 1,99. Mas preço máximo é palhaçada. E o pior é que o "teto" sempre impede que você peça um livro, mas é sempre o necessário para ganhar "kits" do Boticário.

E todo mundo dá esses kits prá todo mundo e todo mundo finge que gosta desses kits que deixam todo mundo com o mesmo cheiro imundo. Perdoem-me, ainda não bebi hoje (adendo post scriptum, but before the publishing : agora já bebi, but not enough).

Final de semana próximo passarei bêbado de sexta à domingo, sem intervalos. Inventaram um amigo-secreto na festa do sábado à noite.

Pois chegarei irreconhecível, já que no jantar de sexta à noite e no almoço de sábado a bebida é de graça e terá Johnny Walker "blue label" (para os leigos, 15 anos de espera). Sem contar as champagnes de no mínimo 100,00 (sim, a veuve clicquot amarela).

Levarei de presente um porta-retrato com a foto do Gugu segurando seu filho, pois sou adepto dos transgênicos. Torça para que eu não tenha tirado você. Aliás, preparem-se para minha performance Jack Nicholson, onde misturo os personagens dele dos filmes "Questão de Honra" e "Melhor é Impossível".

You want the truth ? You can't handle the truth ! E então incorporo Melvin Udall e passo a descrever meu amigo secreto.

Até segunda.

P.s.: avisam-me, após terminar este escrito e antes de publicá-lo, que o amigo secreto foi cancelado. Levarei o presente mesmo assim. Escolherei a esmo o amigo. A performance permanece confirmada.

posted by Chico | 21:28 Comentários:

Domingo, Dezembro 14, 2003



Olha que bacana o banner que o gentil Flamarion me presenteou. Auto-explicativo, não ?

Tem links novos aí ao lado. Dispensam comentários. E também publiquei novo post na Sociedade.

E você já reparou que desisti do "Who's fooling who?" ? Não, não, ainda não descobri a resposta, mas bobo por bobo, fico com meu apelido velho de guerra.

Mas não se deixe enganar, hein ?

posted by Chico | 22:23 Comentários:

Que coisa, não ?

Perguntam-me onde é que a coisa vai parar. Não sei.

Acho curiosa a coisa. Ela sempre está indo, nunca vindo. Eu tenho preguiça de ir atrás da coisa.

Qualquer tempo passado foi melhor. Dita e redita esta frase, não é diferente da coisa que se vai e sempre foi melhor antes de ter ido. Pela inércia, voto sim, senhor Presidente.

Dizem que Jesus morreu pela coisa. Como pouca gente entende o que isto significa, não é à toa que ninguém saiba onde a coisa vai parar.

Tô nem aí, grita uma fuleira no meu rádio. Eu sei, não precisa cantar.

Ninguém percebeu, mas "ô coisinha tão bonitinha do pai" é uma música gospel.

Me lembro de um filme americano chamado "It", traduzido para os jacus como "A Coisa". Talvez vocês se lembrem. Era de terror, um palhaço que na verdade era um monstro. O final é ridículo, faltou verba e o monstro não aparece. Não, me engano, aparece sim. Era uma aranha gigante.

Segundo Raul Seixas, duas aranha, duas aranha....

A coisa se transmuda muito facilmente. Pode ser até aquilo.

Aposto que Caetano e Gil sabem dizer o que é a coisa. Ou não.

Ah, a coisa. Juarez Soares, filósofo do futebol, sempre disse que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A nossa coisa não sei qual delas é. Mas é diferente da outra.

Uma coisa é certa: a coisa está preta.

Bom prá coisa. Com essa história de cotas para negros, ela deve conseguir arranjar uma boquinha. Mas se vai parar, é cedo para dizer.

Onde é que você quer chegar com este post ? Não sei. Ele é como a coisa, sabe lá Deus onde vai parar.

Lembra do filme "Monty Phyton e o Cálice Sagrado" ? Lembra do final sem fim? Pois é...

P.s: onde será que a coisa vai parar, hein ?

posted by Chico | 22:19 Comentários:

A Você, Com Todo Carinho

Paulo Francis, em uma entrevista qualquer, respondendo a uma pergunta sobre restaurantes em Nova York, disse que não indicava nenhum, porque se assim fizesse, iria encher de brasileiros.

Isto me vem à mente sempre que recebo esses guias de bares e restaurantes da cidade. A Veja lança dois por ano aqui em Curitiba. O do verão acabou de sair.

Saber o que existe na cidade é muito bom, embora você só deva visitar esses locais depois de uns dois meses, quando a jacuzada já visitou todos e está "in" novamente.

Agora, a parte em que sai os "melhores" disso e daquilo é de chorar de rir. Por exemplo, por causa da Veja, todo mundo acha que a melhor batata suiça da cidade é a do Beto Batata. Mas não é mesmo. E como respeito Paulo Francis, jamais direi onde fica a melhor batata. Embora seja meio óbvio.

Outro exemplo. Brownie com sorvete. Pela Veja verão, é o da lanchonete estilo 50's, Peggy Sue. Na-na-ni-na-ni-na. Aquilo é bolo de chocolate com sorvete. É bom, mas brownie de verdade fica em outro lugar. Custa a metade do preço e é setecentas vezes superior. De novo, é óbvio, mas a gente fuleira que vive à custa de guia de revista não merece saber disto.

Estou pensando seriamente em digitalizar essa lista de melhores, com as devidas anotações, impimir e colar na porta da geladeira. Por que ? Ora, porque todos temos aqueles amigos "descolados", que ligam dizendo "vamos em tal lugar novo que EU descobri ?". Sempre respondo : "qual ? aquele que aquele viado indicou na Veja ?".

Noite salva, como se vê, porque gente descolada finge que é autêntica, e quando desmascarada, fica brabinha.

posted by Chico | 22:16 Comentários:

Quarta-feira, Dezembro 10, 2003

Ditado Adaptado ao Brasil

Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Mas é tratado como louco.

posted by Chico | 18:12 Comentários:

Mau Gosto

Dizem que tudo é questão de gosto. Reconheço que é um modo de parar de se incomodar. Dói na boca do estômago ouvir neguinho dizendo que não há diferença entre música popular e música clássica. "É mera questão de gosto !". Eu deixo que ele pense assim. Para mim é cômodo.

Não que ambas sejam "excludentes". Nada disso. Mas a diferença entre elas é a mesma que bijuteria e jóia. Existem bijuterias belíssimas, mas nenhuma tem o valor de uma mísera jóia. Mas enfim, tem quem ache que é mera questão de gosto preferir bijuterias à jóias.

Pensando nisto, resolvi contribuir com esta pseudo-humanidade.

Eu inventei um sistema. Simples, básico, sem erro. Quando você ler um livro, ouvir uma música, assistir um filme, um programa na TV, etc. e tal, espere a reação do seu corpo. Se arrepiar a nuca, não presta. Se arrepiar os braços, presta.

Se você está tentado a perguntar sobre: "E se o arrepio for no cu ?", digo-lhe que o fato de você automaticamente associar arrepio a cu denota apenas qual o seu gosto sexual. Vá para Bocaiúva do Sul, por favor, e não me incomode.

Creio que é um método simples, mas absolutamente confiável. Afinal, adaptei apenas o paradigma da modernidade. Se tudo é questão de gosto, retrocedamos mais um pouco e larguemos mão sequer de pensar sobre. Arrepiou o braço, é uma obra de arte. Arrepiou a nuca, é merda. Simples assim.

Exemplo. Lembremos quando a Heloísa Helena chorou na tribuna do Senado. Nuca arrepiada, é óbvio. Eu sei, eu sei que em você, o braço é que arrepiou. Efeitos colaterais da técnica. Facilita para você saber do que gosta. Mas facilita também a mostra das diferenças. Mas, ei, como você mesmo diz: questão de gosto, certo ? Você acha que a Heloísa Helena é um homem do cacete, coerente, o máximo em política. E eu é que não vou lhe convencer que coerência na burrice não torna ninguém melhor, ao contrário.

Ficou incomodado, não ? Mera questão de gosto não resolveu seu problema, certo ? Você está louco para argumentar em favor da HH. Eu sei, eu sei como funciona. Mas ei, foi você quem disse que não tem diferença entre bijuteria e jóia, lembra-se ?

posted by Chico | 18:12 Comentários:

Sábado, Dezembro 06, 2003



Em Que Estado Fica Bocaiúva Do Sul Mesmo ?

Bocaiúva do Sul está na boca do povo. Por lá, o Prefeito não quer homem com homem, nem mulher com mulher. Mas para fazer isto, pelo visto, vale tudo. Muita gente levou a sério.

Eu me pergunto como se daria a constatação de quem é quem. Por via das dúvidas, quero distância de Bocaiúva do Sul. No meu, ninguém mete a mão.

O Prefeito já tinha proibido camisinhas na cidade. Depois deu amendoins de graça para todo mundo. Ele quer aumentar o número de cidadãos. Em Bocaiúva, ninguém trepa a cotento.

Dizem que é culpa dos OVNIS. Desde que o Prefeito construiu a pista de pouso para espaçonaves, dizem que coisas estranhas estão acontecendo por lá. De estranho, para mim, é só o fato do Prefeito ter ido ao Jô Soares em razão disto. Pensando melhor, estranho seria se não tivesse sido convidado...

Quando a seleção brasileira jogou em Curitiba dias atrás, o Prefeito avisou que as naves pousariam em Bocaiúva na mesma hora do jogo. A pedido do Onaireves Moura, presidente da Federação Paranaense de Futebol, ele conseguiu convencê-los a pousar em outro dia.

Hoje, Bocaiúva está tomada de gays. Passeatas acontecem todos os dias. Não se sabe se as naves pousaram, nem se os ET's já moram lá. Uns dizem que o Prefeito foi abduzido. Outros acham que os ET's são homofóbicos. Eu acho que os gays é que são os ET's. Enfim chegaram.

Perguntaram ao Prefeito se ele era heterossexual. Ele respondeu que não, que ele era homem muito macho.

Prá mim, faz todo sentido.

posted by Chico | 12:33 Comentários:



Nem parece que o futebol brasileiro se tornou a coisa mais chata de todos os tempos. Esta semana cheguei a ficar com saudades de assistir a jogos nos estádios.

Primeiro, a briga entre argentinos e brasileiros no jogo São Paulo e River Plate no meio de semana. Finalmente, voltamos às boas.

Mas melhor do que a briga, foi a declaração do novo Serginho Chulapa, Luis Fabiano. A briga foi no final do jogo, que acabaria se decidindo nos pênaltis. Ele tinha duas opções. Ou ficava na dele ou ajudava seu companheiro na briga, com o bônus de poder bater em argentino. Logo se vê que não havia opção alguma. Surrar argentino era uma obrigação.

No fim do jogo, ele sustentou sua opção. Para ele, deu azar. Em todas as outras vezes que foi expulso, ele até acha que errou, mas desta vez não, desta vez foi puro azar mesmo. Concordo com ele.

O segundo fato que me comoveu foi aqui nessa terra paranaense. Como todos sabem o Estado do Paraná só possui dois times, Coritiba e Atlético Paranaense, rivais até a morte, graças a Deus. Pois bem, esta rivalidade anda muito murcha. Quando um vai bem o outro vai muito mal. Assim, fica meio sem graça. Salvo....

Exatamente, o ex-jogador Mário Sérgio Pontes de Paiva e atual técnico do Atlético, deu uma declaração essa semana dizendo que vai torcer contra os coxas nesta reta final, para eles não se classificarem para a Libertadores. Obviedade, bem sei, mas há quanto tempo não temos isso ?

Apesar dessas boas novas, nada indica que voltamos aos bons tempos. No campeonato brasileiro, as coisas estão chatíssimas. Já existe um campeão. Que será lembrado pela "tática" do treinador, pelo "conjunto", etc. e tal.

Saudades dos tempos em que o campeão era lembrado por aquela pedalada do Robinho na final de 2002, ou os trocentos gols do Alex Mineiro nas finais de 2001. Sim, porque existia uma final de campeonato. Agora os frouxos podem sorrir porque tem chances de serem campeões pela "regularidade".

Pro inferno com essa coisa morna.

P.s.: Ricardo Pinto, ex-goleiro do Fluminense e do Atlético Paranaense quase morreu de novo. Lembram que a torcida do Fluminense lhe espancou num jogo em que ele defendia o Atlético, lá pelos idos de 1996 ? Pois é, agora ele foi pescar em alto mar, de barco e se perdeu. Ficou uns dois dias fora até que o encontraram quase desidratado. Os deuses do futebol não perdoam.

posted by Chico | 12:32 Comentários:



O Melhor Amigo do Homem

Dizem que o melhor amigo do homem é o cachorro. Vinícius de Moraes concordou, desde que o cachorro fosse engarrafado. Sou mais o Vinícius. Meu barbeiro também.

A dica veio do meu irmão. Era do lado do escritório e bem mais barato que qualquer outro lugar. Único senão: "não vá de tarde, porque na hora do almoço ele começa a beber no bar do lado". E assim, sempre fui pela manhã cortar meu cabelo.

Numa dessas, escutei a história de um louquinho que vai cortar cabelo lá e leva sua esposa. Ele fica ofendendo o barbeiro, perguntando se ele sabe cortar, dizendo que a lâmina está muito fria, etc. e tal. Meu barbeiro chegou à conclusão que ele está fingindo e já lhe cortou várias vezes a nuca, com a gilete fria. Mas ele gosta do louquinho. Sempre no final do corte o tal faz a mesma coisa. Ele dá um pulo na cadeira e pergunta para o barbeiro desde quando ele deixa mulher feia entrar ali. Pelo espelho, ele aponta a própria esposa. Que já desistiu, é evidente.

Dia desses ele pediu ajuda ao meu irmão para terminar de fazer uma palavra cruzada que há três dias ele não conseguia terminar. Faltava uma única palavra. Meu irmão conseguiu resolver o problema. Foi só dizer que "saudação jovial" não era "iá" e que ônibus só tem um "o".

Histórias de barbeiro é que não faltam, claro. Gostaria de ser cliente de um sujeito que possui estabelecimento ali pelos lados da "La Casa Di frango", no Juvevê. Mas ainda não criei coragem. Ele tem inúmeras histórias terríveis. A mais leve é quando um pai boa gente, querendo iniciar o filho de uns sete anos de idade nas coisas de homem das antigas, levou-o para seu primeiro corte com o tal.

O pai levou uma revista e pediu ao barbeiro que cortasse igual a um dos guris que aparecia numa foto. Era um cabelo "tigela". O barbeiro disse que: "cortar eu corto, mas que ele vai ficar parecendo um viado, não tenha dúvidas !".

Ontem, atarefado e esquecido, fui cortar o cabelo pela última vez no ano. Chegando, a "barbeira", companheira da figuraça, estava destruindo um cabelo de uma doméstica qualquer. Ele não estava. Ela me disse então: "vai no bar aí do lado e chama ele que eu vou demorar".

Lembrei que eram três da tarde. Tive a chance de fugir, mas ele me reconheceu quando passei em frente ao bar. "Veio cortar dotô !". E de um gole só terminou o cahorro transparente que jazia naquele copinho típico.

"Tava aqui adoçando a vida !".

Me comovi e me convenci. Ele não estava bêbado, mas com o braço firmado. Começou a cortar. Um escapamento de um carro estourou. Ele deu um pulo, um rodopio, bateu os braços qual passarinho, deu dois passos para trás como um bebê aprendendo a andar e se estatelou no banquinho de espera.

"Vixe, mãe ! Parece tiro de 22 !"

E me contou das diversas experiências que teve com assalto e tudo mais. Só ali, assaltaram duas vezes. Depois que ele comprou um 22, tentaram mais três. Nunca mais conseguiram.

"Vão proibir tudo, eu sei, dotô ! Tô sabendo. O Zé Centelha, dono do bar aqui do lado andou me falando. Mas eu quero que se dane. Antes eles do que eu !".

Ninguém discordaria deste sábio homem. Quis saber porque Zé Centelha. Ele deu uma risada misteriosa. Lembrei-me das palavras cruzadas e me calei.

Ele mudou a estação do rádio e baixinho me confessou que não suportava as músicas bregas que a parceira gosta. Deixou então numa "easy radio" qualquer. Uma canção dos anos 70 começou a tocar. E ele, dançando.

"O senhor não pegou a época da discoteca, né ?", "Ah, o senhor era muito novo !". "Era uma beleza. Era só luz e som. Luz e som. Não tinha droga, só diversão." "Ela acabou ali por 86....não, 82 já tava bem fraquinho..."

Adoro conversa de bêbado sem sentido ou mentirosa.

"...Depois veio o rap, aí fudeu tudo." Ele continuava dançando. Eu, depois de mais esta constatação genial sobre verdades históricas, já batucava no braço da cadeira.

A música acabou e começou "The Lady in Red". Ele continuou dançando no ritmo disco. E arriscou cantar. Percebi que ele estava cantando "I Will Survive" no ritmo de "The Lady In Red". Inexplicavelmente, no refrão, ele cantou os versos certos. No repeteco do refrão, não resisti e acompanhei: "the lady in red.....is dancing with me.....cheek to che