Terça-feira, Fevereiro 24, 2004
Vou-me embora prá Pasargada, lá sou amigo do rei.
É chegado o fim dos tempos de ficar odara. O que significa que se inicia a minha temporada. O lixoral paranaense fica até simpático entre março e fim de novembro. Portanto, utilizarei a minha inteligente troca de trabalhar na segunda e terça de carnaval e me liberar na quinta e sexta de cinzas. Meu feriado começa hoje. Volto no domingo.
P.s.: Carlinhos Brown preso. Quem foi que disse que o carnaval não é um tesão ?
P.s. 2: para não lhe deixar no desalento, deixo duas lições de casa. Duas pessoas apareceram por aqui em busca de "pocotopocotopocoto" e "significado de peide". Seu trabalho é (i) conseguir entender porque um simples "pocoto" já não resolveria o problema do primeiro sujeito; e (ii) fazendo uso do método lógico-empírico-dedutivo, responder se o outro sujeito não tem cu ou não tem nariz.
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19:54 Comentários:
Um PC Para Chamar de Seu
Consequência nada interessante deste episódio Waldomiro e PT corrupto, foi o bate-boca entre Marilena Chauí, a Roberta Miranda dos filosofantes de plantão, e José Arthur Giannotti (que se diz professor daquela, o que evidentemente, depõe contra qualquer pessoa), nas páginas da Folha de São Paulo da semana passada. Não sei se a rinha já terminou, pois só acompanhei o ataque risível de Marilena e a resposta pouco apimentada de Giannotti.
Segundo aquela, a ética é um "espaço simbólico" da política que está em disputa, sendo que os atuais acontecimentos nada mais são do que tentativas de retirar o PT de seu posto de dono da ética. Giannotti, que tempos atrás defendeu um espaço amoral na seara política, veio defender esta tese e responder aos ataques de Marilena.
Marilena é uma piada, como todos sabem. Ela chega ao cúmulo de dizer que a acusação contra o PT é hipócrita porque o caso se deu antes do atual governo e no Rio, durante o governo Garotinho. Como se Waldomiro não tivesse sido nomeado pela cota do PT e como se Waldomiro não fosse hoje integrante do tal atual governo. Mas basta ler a Época desta semana para se saber que Waldomiro manteve a prática agora no governo Lula. Bem se vê quem é hipócrita.
Mas longe de mim entrar neste bate-boca. Eu, coitado de mim, que creio que a ética é atitude individual, decisão de fazer o bem em vez do mal, o certo em vez do errado, não consigo mesmo entender como pode um grupo inteiro ser ético, independente dos atos de seus integrantes.
O tal espaço simbólico da ética só foi reconhecido por Marilena quando esse "espaço" interessou para seu partido e sua ideologia tomarem o poder. A ética pela ética está muito longe de seu ideario. Ou seja, não interessa saber quem é ético ou não, mas sim quem "ocupa o espaço", sendo que só há lugar para um. Logo, se alguém é ético, os outros, pela lógica marilênica, não o são.
Já Giannotti, embora dê mais voltas e possa enganar alguns passantes, também não me parece cheirar bem. Afinal, sua tese de espaços de amoralidade na política nada mais serve do que justificar a manutenção do poder a qualquer preço.
Marilena "descobriu" que a ética serve como instrumento na luta pelo poder. Giannotti descobriu que basta ter o poder para se perceber que a ética é um instrumento desnecessário. No fundo, vê-se que são mais parecidos do que imaginam. Assim como o PSDB e o PT.
George Orwell dizia que "é preciso ser intelectual para acreditar nessas coisas, nenhum homem comum seria tão tolo".
Por isto, esqueça dessa bobagem de perguntar a esses sábios o que afinal é a Ética para eles. Assim mesmo, com maiúscula e valor próprio e absoluto. Não há "espaço" para esse tipo de "especulação" nesse país.
Waldomiro é o menor de nossos problemas.
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19:52 Comentários:
Domingo, Fevereiro 22, 2004
Breve Reflexão Cristã em um Domingo de Carnaval
É certo que a arte da distinção merece o epíteto de arte. Mais certo ainda é que se trata de estudo básico e introdutório em qualquer filosofia. Nem por isto é algo simples ou fácil. Longe disto.
A tarefa dos jurados na Sapucaí está aí para não me deixar mentir. A ciência é algo sublime e complexo. Ainda assim, sempre que pratico a arte do distinguo, preciso de doses extras de coragem e engov.
Pode ser que tudo seja culpa de um dileto amigo que então me clareou o caminho ao me fazer ver a diferença entre cagar na cara e cagar no olho. Imagine o cu...muito bem....imagine o olho.... Pare, por favor, foi o que disse e ele evidentemente ignorou. Desde então, tenho muito cuidado com pombos.
Dito isto, tem-se não ser fácil a distinção entre um baile de carnaval e uma missa carismática. A pouca roupa, responde-me um amigo. Replico que estivessem todos pelados, não creio que os carismáticos notassem, tal o transe. O sexo, diz outro. Ok, no carnaval você pode comer alguém. Mas nessas missas, a masturbação não fica muito longe. Já ouviu falar em sexo tântrico ?
Vê-se que a distinção é complicada e não é para poucos. Sendo assim, faço como todo mundo hoje em dia e me contento com pouco. Há diferença ? Talvez, mas não interessa. Como diz o Violent Femmes, o que importa queridos, em ambos os casos, é "dance, motherfucker, dance !".
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15:53 Comentários:
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004
Enquanto isto, no Campo de Concentração....
"Ficamos conhecendo o ser humano como talvez nenhuma geração humana antes de nós. O que é, então, um ser humano ? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios."
(FRANKL, Victor E. Em Busca de Sentido. 10a. edição. Editora Sinodal. Pág. 84)
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19:06 Comentários:
Beber é não ter a vergonha de ser feliz.
A Irlanda do Norte é um país simpático. Todo país com fama de bêbado é simpático. Daí que me interessei em assistir a seleção brasileira jogar contra o selecionado irlândes. Bêbado estivesse, o jogo teria sido muito bom.
Reza a lenda que será permitido aos jogadores de futebol jogarem embriagados porque o álcool não seria doping. Mentira, porque todos sabemos que o Paraíso não é na terra. Independente da política no futebol, certo mesmo é que Roque Jr. só pode jogar bêbado. Eu se fosse ele dizia que estava, pelo menos. Só isto explica o futebol desse moço.
Questão relevante é saber se você gostou ou não da nova camisa. Aquele cágado em forma de comentarista da Globo, não gostou porque tinha muito verde. Concluo que ele não gosta da bandeira nacional, mas na verdade eu quero mais é que se foda. Sendo amarela quase inteira, os detalhes são detalhes tão pequenos quanto o cágado.
Outra questão mais relevante ainda, foi a tese levantada pelo cágado, de que a bola devia estar diferente porque os jogadores não estariam conseguindo dominá-la "direito". Ah, o efeito da bebida é realmente fantástico ! Aliás, o maior mérito do cágado como comentarista, em toda sua vida, foi aparecer dormindo sentado num dos intervalos de algum jogo do Brasil na Copa do Mundo de 2002.
Eu não sei quanto terminou o jogo. Saí nos 20 do segundo tempo para tomar uma. O futebol é um vício, Garrincha já dizia. Vargas disse que saiu da vida para entrar na história. Garrincha poderia dizer o mesmo, graças à bebida. Morreu por ela, mas não teria jogado sem.
Para fnalizar, assisti na ESPN Brasil, festa em homenagem a Sócrates. Durante a noite, homenagens, no dia seguinte futebol e churrasco com os amigos. Sempre com um copo na mão. Sempre falando torto. Nunca bêbado. Não é à toa que ele inventou o passe de calcanhar.
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19:05 Comentários:
Domingo, Fevereiro 15, 2004
Porque nem tudo que é grande é tão difícil de encontrar.
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15:57 Comentários:
Porque Não Basta
Há dias de delicadeza. Dias em que se acorda com um beijo que te acolhe para além do bom dia. Que parecem estar sempre ao fundo com aquela trilha sonora de canções tristes e lentas.
Dias de olhares. Olhares que pedem, quase suplicam. Dias frágeis, de choro fácil, mas limpo, sem escândalo. O paladar não é exigente, mas quer sabor. O tato precisa do outro. A visão embaça, mas é mais viva. A audição procura as folhas embaladas pela brisa, em busca do sentido de permanecer.
Dias em que o Amor se faz com letras maiúsculas, ainda que em minúsculos gestos. Dias em que ela é tudo. Não completa, não é cara-metade. Ela é você. E você precisa disto. Porque você sabe que ama. Porque você não se esquece disto. Porque um dia será sua vez de ser por ela.
Há dias de delicadeza. Quase sempre, também são dias delicados. E é preciso quem te leve pela mão. Quem ilumine mesmo não vendo o quão escuro está o teu caminho. Enfim, quem aceite o encargo da entrega. Em dias assim, um singelo beijo de boa noite, para ela já basta como um muito obrigado. Não para mim.
"Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte." Cantares 8,6.
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15:54 Comentários:
Like The Comet
Não entendo quem leia críticas de filmes antes de assistí-los, "para saber se é bom". Quanto mais falam de um filme, menos eu tenho vontade de assistir. Ser do contra é gostoso. Mais ainda saber que você fica puto com essas coisas.
Fazia um ano e meio que não ia a um cinema. Minha média é um filme por ano. Eu sei, eu sei, é um exagero. Mas eu gosto de cinema, confesso. Assisti ao Último Samurai. Se Tom Cruise é o último deles, não me espanta o número de suicídios de japoneses. O filme é bom, em parte. Mais não digo, até porque a incoerência não é uma virtude só da arte. Mas as flores realmente estavam lindas, perfeitas.
E eu lhes pouparei de comentários sobre os mamíferos que assistiram o filme na mesma sessão. Embora o sujeito que não achava a saída para ir ao banheiro tenha valido o ingresso. Tem o Retorno do Rei, mas o aparelho de DVD ficou ainda mais simpático agora. So, see you next year.
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15:53 Comentários:
Living On The Edge
Sou extremamente pacato. E não viro guerreiro como o gato do He-Man. O exílio é sempre a melhor solução. Como diz o Dante , não entro em discussões em que a vitória é certa. Por isto não entendo os samurais. Fico com Indiana Jones.
Não há graça em escrever se não for para chocar. Equilibro-me no limite. Naquela tênue linha que não separa o seu ódio do meu riso. Não há diques de contenção. Me aconselharam desde cedo a atirar antes e perguntar depois. Tolerância Zero é propaganda. Tiro na nuca é solução. Cuidado com o degrau.
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15:51 Comentários:
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004
Everything In It's Right Place
Querem me prejudicar. Cobram-me uma carreira. Não é à toa que o Tráfico é o INSS dos pobres. Tudo vale a pena se o saldo não é pequeno. Tornarei-me um orc.
Minto desbragadamente aqui. Adoro palavras difíceis em textos desconexos. Ainda aprenderei a abrir as portas como Kramer. Até lá, fico com meu cérebro, que como o do Homer, adora sair batendo a porta na minha cara.
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15:52 Comentários:
Promoção Enquanto Durar o Estoque
Não tenho nenhuma dúvida que a maioria dos problemas "psicológicos" se resolve com uma técnica bem simples. Quando estiver em "crise", pergunte-se por que você não se mata. Quando lhe vier à mente a primeira resposta, dê um forte tapa na sua cara, daqueles de estalar (se precisar de ajuda nesta parte, estou à disposição). Repita o procedimento nas duas próximas respostas. A partir da quarta, preste atenção. Anote se quiser. Depois, vá até a janela. Olhe o horizonte. Não o prédio em frente. O horizonte.
Repita esta técnica quantas vezes for necessário. Quando você começar a sentir uma vontade irresistível de rir de si mesmo olhando o horizonte, parabéns, você está curado. Agora, go get a life.
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15:51 Comentários:
Sessão da Tarde
Sempre que assisto CSI, imagino Sherlock Holmes sentado no cantinho do laboratório, comentando com Watson, "Elementar meu caro, a ciência me substituiu. Mas como acabou de constatar, ainda descubro antes e melhor. O charme, Watson, o charme é imprescindível. Grissom é um bruto citando Sheakspeare. Não resistiria a dois quartos de hora comigo naquela sala escura".
Dostoievski também se encontra em cada fundo de cena de Cold Case. Mas aposto que o russo vai-se embora antes do fim. Não resistiria à câmera lenta e à pieguice. Só se é jogador até certo ponto. Não assisto The West Wing. Basta-me o noticiário regular.
Vem aí a 3ª. temporada de 24 horas. Confesso que me divirto pacas com essa série. Daquelas de lhe grudar no sofá de nervoso. Sinto-me como uma criança esperando o capítulo final da Caverna do Dragão. Dessa vez vai.
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15:50 Comentários:
Domingo, Fevereiro 08, 2004
Há 1001 Maneiras de Preparar Neston
Dormia bem, não podia reclamar. Passava das oito horas legais diariamente. Não raro chegava a dez. Cumpria a mesma rotina sempre, do que também não reclamava. Após o banho, café da manhã com a esposa que invariavelmente lhe contava os sonhos da noite anterior. Era impressionante a capacidade de superação no absurdo desses sonhos. Já teve de tudo. Até um tapa certa vez ele levou dormindo porque a estava traindo no sonho. E vá dizer que isto não se podia levar a sério. Ele nunca se lembrava de seus sonhos. Achava mesmo que não sonhava, o que tornava aquela conversa, além de absurda, besta. Levava as crianças ao colégio e ia trabalhar. Sempre assim. Naquele dia, não foi diferente. Até a hora da reunião ordinária...
Ele estava lá, sentado escutando o diretor esbravejar contra a falta de garra da equipe, que as vendas já não eram as mesmas, patati, patatá. Todo começo de semana era assim. Naquela reunião, o setor de Araújo era a bola da vez. Escutava ele pacientemente as críticas pertinentes ou não do chefe, quando um estouro dos vidros que separavam a sala do corredor abafaram os esbravejos. Cerca de quinze piratas adentraram. Espadas de base fina e grossa lâmina ziguezagueavam por sobre as cabeças. Todos cheiravam mal e à bebida velha. Alguns com tapa-olho, a maioria de barba. De comum mesmo, os gorrinhos vermelhos amarrados atrás da cabeça. Só um usava um grande chapéu com a tradicional caveira e os ossinhos cruzados abaixo dela.
Araújo estava sem ar, assustadíssimo, sem compreender. Olhou em volta da mesa e viu poucos dos colegas estupefatos. A maioria parecia que sequer enxergava o que acontecia. O pirata de chapéu, certamente o capitão, gritava com o chefe, mas Araújo não conseguia discernir as palavras porque não entendia de onde vinha a coragem do chefe para não demonstrar qualquer incômodo com aquilo. Na verdade, era ele totalmente indiferente aos piratas. Araújo então se desesperou quando o capitão levantou sua espada. Quando ela começava a descer em direção ao pescoço do chefe, Marcelo, seu vizinho de sala, subitamente levantou-se e vestido como um gladiador romano, portava nas mãos uma enorme espada que com ela, evitou o golpe mortal. Araújo, aproveitando da confusão, conseguiu fugir, não sem antes olhar Marcelo, vibrando como nunca, enfrentar os quinze piratas sozinho. Até mesmo uma piscadela para ele, Araújo imaginou ter visto. Saiu correndo, desistindo de chamar os demais, que simplesmente ficavam fazendo anotações em suas cadernetas.
Entrou em desabalada carreira na sua sala. As três linhas telefônicas do escritório estavam ocupadas. Ele se tranquilizou. Certamente os demais funcionários já haviam chamado a polícia. Era hora de ir embora. Atrapalhado e nervoso, derrubou uma pilha de pastas que estava em cima de sua mesa. Automaticamente começou a recolhê-las quando escutou a porta da sala fechando lentamente. O rangido preguiçoso da dobradiça demorou a terminar. Aterrorizado, só conseguia olhar para os sapatos daquele que ali entrara. Eram impecáveis sapatos de couro negro, extremamente limpos e polidos. Formava a parte frontal, larga dos dedos, um pequeno espelho de abóbada de onde Araújo pôde contemplar o próprio rosto. Não se reconheceu. Aos poucos levantou os olhos e pôde conferir quem era.
Um senhor alto, de cabelos e longa barba branca, vestido num fino terno de risca-de-giz, camisas brancas com listras verticais pretas e gravata bordô, com um pequeno lenço da mesma cor no bolso do coração do paletó. Uma cicatriz na face, um cigarro dourado num canto da boca. O chapéu era igualmente impecável. Mas os olhos é que chamavam a atenção. Eram escuros. Olhos óbvios de arquivo, daqueles sem chaves cujo dono sabe de cor onde fica cada coisa. E um deles era independente do resto do rosto. Não era vesgo ou algo assim. Os olhos viravam para onde queriam, mas parecia que ele tinha absoluto controle daquilo.
Araújo levantou-se sem conseguir dizer nada. O olhar de ameaça do homem à sua frente parecia aos poucos aliviar-se. Após uma longa tragada no cigarro cuja baforada cobriu a sala de uma penumbra cinza e cheiro de madeira antiga, o homem lhe disse: "Você pode tentar fugir e vai tentar, mas no fundo já sabe que nós o pegamos..." Araújo mal conseguiu ouvir o que o homem disse porque pensava numa forma de escapar. Mas aquela era a única porta e da janela, dez andares o separavam da realidade do chão.
Após analisar rapidamente a falta de opções, Araújo sequer percebeu que o homem havia sentado à sua frente e examinava suas pastas com olhar de desprezo e nojo. Araújo assustou-se com uma grande sombra que adentrava pela janela, e de imediato viu a ponta da asa de um bicho enorme invadir a sala. Sem pensar e apavorado com o homem à sua frente que mexia agora no bolso de dentro do seu paletó, Araújo virou-se rapidamente e saltou pela janela aberta. Centímetros depois estava sentado no pescoço de um imenso pterodáctilo que já o levava por sobre a cidade. Sua mente já não respondia. Conseguiu apenas vislumbrar o homem na janela de sua sala. Parecia sorrir, mas poderia ser mera impressão causada pelo brilho do cigarro dourado.
Cinco minutos depois, o bicho pousou calmamente na praça em frente à sua casa. Ainda sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, fez um carinho na cabeça do animal que após um grunhido, balançou-se e voltou aos céus. Araújo olhou à sua volta. Havia dezenas de pessoas nas ruas do entorno. Nenhuma parecia lhe dar atenção ou demonstrar surpresa. Salvo aqueles dois meninos que jogavam bola no gramado ali perto, que boquiabertos escondiam-se por detrás de uma árvore. Araújo não teve coragem e foi para casa.
A volta para casa também possuía um ritual, idêntico para todos os dias. A leitura dos jornais no sofá da sala de visita acompanhado de uma cerveja. Brincava com as crianças, ajudava a arrumar a mesa para o jantar e assistia TV com a esposa antes de dormir. Mas naquele dia chegara antes da hora. Não havia ninguém em casa. As crianças chegariam da natação com a esposa dali a meia hora. Pegou o jornal e foi para a sala de visita. Não quis a cerveja. Mas preparou um duplo Jack Daniels que tinha comprado por causa daquele filme do Clint Eastwood. Não conseguiu tomar puro e misturou com as quatro pedras de gelo, água com gás gelada. Começou a ler o jornal, mas nada o fazia prestar atenção. Lera a parte de esportes, sem entusiasmo. A parte de política e de "cidades" simplesmente lhe pareceram fora da realidade. Nunca lia o caderno de cultura, mas chamou-lhe a atenção o título de uma coluna. Parou no terceiro parágrafo. Desistiu do jornal. Ligou o computador para brincar na Internet, o que não conseguira fazer no trabalho, mas tudo lhe parecia devagar e tedioso. Resolveu tomar novo banho. Quando molhava a cabeça tirando o shampoo que lhe escorrera nos olhos, estrondos do lado de fora lhe chamaram a atenção.
Pareciam fogos de artifício, mas eram diferentes. Vislumbrou por entre os olhos ensaboados e através da pequena janela que dali dava para a rua, enormes galeões espanhóis ao fundo do mar, que parecia revolto. Densas nuvens negras cobriam vez por outra a vista, mas não o suficiente para lhe impedir de perceber que havia uma batalha. Os barulhos eram tiros de canhões trocados entre os navios. Aos poucos os navios se distanciavam. Araújo já terminava de se enxugar quando pôde novamente ouvir os barulhos das gaivotas nervosas em cima das pedras.
As crianças chegaram. Algo de diferente nelas, mas não conseguiu descobrir o que era. A esposa preparava o jantar, contando seu dia, enquanto ele colocava a mesa. Terminada a tarefa, não deu chances para que ela soubesse do seu. Passeou pela casa e sentiu falta de livros nas prateleiras cheias de vasos vazios e briquebraques variados. Entrou silenciosamente no quarto das crianças. A mais nova ainda fazia sua lição de casa enquanto o mais velho jogava videogame. Quis jogar com o filho, mas este negou o pedido. Quis ajudar o outro, mas não era necessário. Sem querer, olhou para a única prateleira sem brinquedos. Lembrou-se dos livros infantis que o avô das crianças costuma dar-lhes de presente. Eram vários, mas Peter Pan lhe chamou a atenção, sem saber bem o porque.
Sentou-se na cama debaixo do beliche dos meninos e começou a ler a história. O cheiro do livro então lhe lembrou. Era o mesmo livro que tinha lido quando menino na fazenda do pai. Sentado no balanço montado pelo caseiro debaixo da goiabeira, percebeu-se vestido com aquela velha bermuda preferida de criança e com as chinelas de couro. O cheiro do bolo de fubá e café fresco que a mãe sempre fazia no fim de tarde lhe abriram o apetite. Olhou para a varanda e viu o pai com seu inseparável chimarrão jogando conversa fora com o caseiro, seu Aloísio. Sentiu duas cabeças se aninhando embaixo de seus braços. Eram os filhos. Pediram que ele lesse em voz alta. Assim fez.
Era raro, mas no jantar quis saber tudo sobre o dia dos filhos. Achou o empadão da esposa extraordinário. A esposa estranhou, mas não reclamou de nada.
Acordaram. E com eles, a rotina. Após o longo banho, o café com a esposa e a história do sonho contada como sempre. Ele riu. Era absurdo, mas fazia sentido. Contou então o seu sonho. Os olhos brilhavam. A esposa lhe perguntou se algo havia acontecido. Respondeu-lhe que nada demais. Só que dessa vez, lembrava-se do sonho. Ela achou melhor não entender. Araújo percebeu que em sete anos, estava atrasado pela primeira vez. Pediu à esposa que levasse os filhos para a escola. Não tinha tempo a perder. Não queria ser descontado pelo atraso. Torcia para que Sininho ainda não tivesse saído. Só o pozinho mágico poderia lhe salvar.
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18:44 Comentários:
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004
Pixote Não Morreu
Fiquei muito feliz com as indicações de Cidade de Deus para o Oscar. É muito raro eu ter a oportunidade de não assistir um filme duas vezes. Creio que agora posso escrever uma tese sobre ele. Como disse o Mainardi: "Cidade de Deus é muito bom. Assisti ontem e hoje não me lembro de mais nada."
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18:18 Comentários:
Tomou ?
A Parmalat faliu. Eu sempre soube que ser palmeirense era um problema grave de caráter. E o símbolo esmeraldino se coaduna mais com o arquirival incolor. Mas isto não interessa. Proibiram a Nestlé de comprar a Garoto. Eu sempre preferi o Sonho de Valsa mesmo. Ponham a culpa no Michael Jackson.
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18:17 Comentários:
When Tomorrow Comes
O otimismo é algo assustador. Frase famosa diz que se você sentir duas bolinhas lhe batendo na bunda, não se preocupe porque o pior já passou. Idiotice seria um elogio. Não que o pessimismo seja o ó do borogodó, mas ao menos não faz passar ridículo.
Buda era pelo equilíbrio, modernos dizem-se realistas. Não é à toa que não existem mais circos. Os palhaços estão todos soltos. Mas não creio que seja só eu que se constrange com as propagandas na televisão.
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18:16 Comentários:
Domingo, Fevereiro 01, 2004
Sempre que escuto alguém dizer "Ou você faz parte da cura ou é parte da doença" concluo que seu estado é terminal e resta rezar para que não sofra muito. Minto, eu quero que sofra e muito.
Aquele que se acha parte da cura, tenha certeza, é doente e sintoma da doença. Nunca vi alguém que seja parte da doença, admitir. Daí que concluo que a doença deva ser sexualmente transmissível.
Eu não sei se acredito em vacinas, nem sei de que doença tanto falam. Por via das dúvidas, ponham a culpa no Papa.
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18:29 Comentários:
Estatuto do Idoso, Estatuto da Criaça e do Adolescente, Lei de Cotas Para Negros, Lei do Desarmamento, etc.....
"O que sempre fez do Estado um inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso."
Holderlin
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18:25 Comentários:
Zé Pequeno O Caralho, Meu Nome É Primeiro Ministro
No Corcel II com rodas de magnésio à minha frente, leio o adesivo de que o carro é velho mas está pago. Lembro-me do meu sogro nos idos antigos voltando da praia com um amigo rico, que aos pobres parados no acostamento porque o motor "ferveu", gritava: "Venda esta merda !"
Nunca viajei para o exterior, mas quando for, gritarei o mesmo do avião. Claro, desde que eu já esteja em águas internacionais. Acham um absurdo o avião novo do Lula. Com esse dinheiro, dava para isso e aquilo e aqueloutro e mais um pouco. Eu prefiro ele longe.
Avisam-me os jornais que Zé Dirceu é agora chefe de governo. Estamos quase parlamentaristas. Se for um passo para a monarquia, aceito. Aguardo ansioso a dissolução do Congresso Nacional.
No Manhattan Connection da semana passada, após o Mainardi esplanar o que ele acha melhor para o Iraque, aquele menor de idade respondeu que se isto acontecesse, desestabilizaria a Turquia. "Dane-se a Turquia !" gritou o Diogo daqui do Brasil. Segundo uns e outros, certamente ele estava tentando imitar Paulo Francis.
Neste domingo tivemos o clássico Atletiba aqui no Paraná. Os dirigentes, sempre brilhantes, queriam que o jogo só tivesse uma torcida. A do time mandante. E que assim fosse sempre nos clássicos. Obviamente, todo mundo caiu de pau na idéia imbecil e os dirigentes foram obrigados a desistir da idéia. Vejo que o Lula está fazendo o mesmo neste país, mas só alguns poucos vêem problema nisto. Idéias imbecis caem como uma luva para um povo imbecil. Só entendemos de futebol.
Update: o clássico terminou empatado. A torcida do Coritiba, que jogava em casa, saiu comemorando do estádio. Time pequeno é isto aí. O Atlético ganhava de 1 x 0 e ficou só se defendendo no segundo tempo. No final, os jogadores saíram dizendo que o resultado foi bom porque a obrigação da vitória era do outro lado. Time pequeno também é isto aí.
posted by Chico |
18:24 Comentários:
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